Bacurau eleva Kleber à categoria de gênio

Raimundo Carrero
Jornalista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 19/08/2019 03:00 Atualizado em: 19/08/2019 08:50

Sim, nem vi o filme e já elogio o diretor. Não é para menos, no entanto. Vencer em Cannes derrotando o poderoso cinema americano e, por cima, ocupando as principais salas do país não se faz com um filme qualquer, é preciso realizar o excepcional, o maravilhoso, o magnífico. E, por cima, sendo  brasileiro, nordestino, pernambucano. Uma façanha; sim, uma façanha genial. Meu elogio, porém, vai também – e sobretudo para outros filmes que vi de Kléber, com uma narrativa densa, personagens bem talhados, diálogos rápidos... Em geral uma câmera firme, planos bem definidos... Narrativa em sequência, sem volteios.

Fico tranquilo, porque acompanho a carreira do cineasta desde os curtas que trabalhava com o esmero de quem escreve contos, surpreendendo os personagens na intriga ou na maneira de viver. E viver não é como atravessar um campo de neve, escreve Boris Pasternak, o magnífico criador de Dr. Jivago.

A palavra Bacurau tem muitos significados, pelo menos para mim. Em criança, em Salgueiro, Bacurau era um dos nomes da Zona, do Cabaré, e era sinônimo de Coruja, de qualquer bicho noturno. Dizem-me que é o nome de uma linha de ônibus madrugador de Lisboa. Assim como no Recife. Muitas vezes peguei o bacurau na volta dos bares para casa, sobretudo na madrugada, passando pelo Star na Conde da Boa Vista. E bacurau era também um bar na Zona do Recife.

Vejam, portanto, que coisa incrível: Bacurau é cabaré, Bacurau é ave, Bacurau é restaurante, Bacurau é bar. Enfim, Bacurau é o mundo. Bacurau é tudo que você quiser.

Uma lembrança: O escritor cuja cadeira sucedi na Academia e Artes  Letras de Pernambuco é Kleber Mendonça, o pai. E isto me honra muito, sem dúvida alguma. Esta coisa que chamam de destino, não é mesmo? Tenho um orgulho danado disso.

Agora vou correndo ver o filme, que  me entusiasmo muito com o trabalho criador dos artistas pernambucanos, em qualquer nível e em qualquer área. Todos magníficos. Afinal, nós somos bons produtos. Agora disputados pelo mundo.

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