Abandono paterno

Rogério Morais
Diretor Pedagógico da Secretaria de Educação do Recife

Publicado em: 14/08/2019 03:00 Atualizado em: 14/08/2019 08:58

“O aborto masculino já é legalizado. Diz respeito, na verdade, ao grande número de homens que abandonaram filhos e mães e deixam a obrigação de criar a criança sob a responsabilidade apenas da mulher. No Brasil, 5,5 milhões de crianças não têm o nome do pai na identidade”, escancara a pesquisadora do Instituto de Bioética, Débora Diniz.

No Recife, em pesquisa recentemente realizada com famílias da rede de educação infantil municipal, observa-se a larga preponderância da responsabilidade feminina (83% dos responsáveis pelos estudantes são do sexo feminino, ou seja, apenas 17% do sexo masculino), onde 2/3 delas moram sozinhas, sem marido ou companheiro para compartilhar os desafios parentais. A pesquisa materializou a percepção da situação social que tanto impacta na aprendizagem dos estudantes.

Estudos apontam também os efeitos negativos da “masculinidade tóxica”, quando os filhos crescem violentos em reflexo da convivência com pais violentos. Já a presença e o afeto, a parentalidade positiva, obviamente provocam o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças. A ciência evidencia o impacto da família e dos estímulos na primeira infância como fatores decisivos, para, em conjunto com a escola, colaborarem com o professor em sala de aula.

Como dizia Fernando Pessoa, “é tempo de travessia e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. É tempo de reflexão e ação, de romper com um ciclo vicioso de uma cultura machista que foge da responsabilidade, negando o papel do homem na vida de seres carentes de direitos, carentes do cuidado com o agora para a garantia de um futuro.

Sendo assim, os governos não podem se eximir. Em Recife, a partir da pesquisa realizada, estamos lançando neste segundo semestre o projeto Integrar, que visa instituir um programa voltado para envolver as famílias na comunidade escolar, trazendo uma série de atividades de integração junto aos responsáveis pelos estudantes matriculados nas unidades de educação infantil. Entendemos que, apesar da necessidade de um engajamento multidisciplinar de serviços para criar um entrelaçado de apoio às famílias, a escola não pode se furtar ao desafio, pois é instrumento de elo diário e é justo o conhecimento do desenvolvimento sócio-cognitivo que ela possui, a maior força de impacto para influenciar mudanças comportamentais.

É tempo de provocar essa travessia, de trazer à tona um dos maiores problemas da sociedade atual, que é a crise de afeto. É hora dos homens parirem o senso de paternidade. E isso pode ser provocado pelas políticas públicas.

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