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Opinião
A polêmica Ruy Fausto vs Samuel Pessôa (I)

Maurício Rands

Publicado em: 26/08/2019 03:00 Atualizado em: 26/08/2019 08:10

Em artigo publicado neste Diario no dia 19/8/19 sinalizei apresentar um pouco do debate iniciado na Revista Piauí e continuado nos livros O Valor das Ideias, organizado por Marcos Lisboa e Samuel Pessôa, e Caminhos da Esquerda, de Ruy Fausto. O ponto de partida foi a reflexão de Ruy sobre as alternativas para um novo projeto de esquerda a partir do balanço sobre as mudanças e os erros cometidos pelo maior partido de esquerda nos 13 anos em que esteve no poder. Nele, Ruy identifica três fontes de erros da esquerda contemporânea. A primeira patologia seria a dificuldade de romper com o flerte e a tolerância ao totalitarismo autoritário e burocrata ("totalitarismo igualitarista", como ele prefere). Impressionados ficam Ruy e o leitor com a complacência de muitos no campo da esquerda diante de autoritarismos como o do chavismo venezuelano. Sabendo que isso traz consequências práticas. Na raiz do problema está o raciocínio binário e maniqueísta, que aprisiona muitos na lógica da extinta guerra fria. A segunda, para ele, é a renúncia a propor a superação do capitalismo.

O "adesismo" que, segundo ele, teria sido o maior erro cometido pela socialdemocracia de FHC. A terceira seria o populismo de esquerda que, para realizar um programa redistributivo nos governos do PT, praticou uma política de alianças com velhas forças e submergiu no "intolerável uso abusivo da máquina do Estado em benefício do partido e de particulares ligados a ele" (pag. 51). E aí ele se pergunta: "valeu a pena corromper deputados, desviar dinheiro público, vender cargos públicos, entre outras ilegalidades, para se sustentar no poder e com isso implementar medidas redistributivas?" (pag. 52) E responde: "O impasse a que o PT conduziu a esquerda brasileira não paga o preço do que resta, isto é, os resultados obtidos por sua política redistributiva. (...) A esquerda em geral saiu desmoralizada ao final dos anos de Lula e Dilma na presidência. A direita, por sua vez, incluindo aí a extrema direta, levantou a cabeça". Identificadas essas patologias, ele avança um roteiro para a reconstrução de um projeto de uma nova esquerda que almeje um modelo de desenvolvimento menos concentrador de renda e poder. Propõe que seja dado protagonismo aos setores populares, mas também aos intelectuais. Para que se forje um novo projeto, há que mudar velhas práticas. A começar pelo abandono do dogmatismo e pelo compromisso com a verdade. Abdicar de velhas e falsas narrativas, a pretexto de "combater o adversário". Começando por um programa intransigentemente democrático, que abandone qualquer flerte com o totalitarismo ou o autoritarismo, combinando formas de participação direta com a democracia representativa.

Depois, Ruy propõe a renúncia a qualquer "adesismo" através de "políticas de caráter anticapitalista". Em terceiro lugar, advoga políticas de "governança sem corrupção". E, finalmente, que o novo programa incorpore para valer o compromisso ecológico. Na próxima semana, apresento as posições de Samuel Pessôa e a minha própria neste debate.

*Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford



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