Tipos populares folclóricos

Giovanni Mastroianni
Advogado, administrador e jornalista

Publicado em: 24/07/2019 03:00 Atualizado em: 24/07/2019 10:08

Embora haja conhecido, pessoalmente, todos os personagens que desfilarão neste artigo, valho-me, todavia, da memória de meu irmão Giuseppe para relembrar alguns dos mais curiosos do Recife e de Caruaru do passado, que se constituíram em tipos singulares, incluídos no rol dos folclóricos, tanto da capital pernambucana como do Agreste. Serviu de pretexto para a descrição de figuras que marcaram a vida curiosa desses seres de antanho, desconhecidos das gerações atuais, a lembrança de um tipo curioso que transitava no Recife e bastante original, conhecido por “Lolita” (nome inspirado, talvez, em uma cantora de rumba, de origem cubana, que circulou por plagas do Nordeste). Na verdade um gay exibicionista que desfilava pelas ruas da cidade, cantando bem alto, imitando a cantora Angela Maria, asseverando: “quem não conhece ‘Lolita’ não conhece o RE-CIFE”.

Caruaru não poderia ser divergente e registrava, também, figuras diferentes do homem comum e que não eram poucas. Nomes como os de “Caboba” e “Bambu” aparentavam estar sempre embriagados, caminhando, tropegamente, pelas principais ruas da cidade. Entretanto, outros, demonstrando desequilíbrios mentais, todavia inofensivos, transitavam, livremente, pelas ruas, indiferentes às gozações daqueles mais inescrupulosos, que não alcançavam se tratar de uma anormalidade, provavelmente, reflexo de terríveis males em consequência dos traumas e desigualdades que enfrentavam na vida.

Também havia aqueles que reagiam com impropérios ou mesmo agressivamente, com pedradas, quando provocados pela plebe rude ignara. Eram eles: Mané Ula, Mobinha, Pereirão, Pelinho, Dinda, Seu Lau e Espice. Este último, talvez o mais incomum, entre os demais, era metido a falar francês, embora, apenas, repetisse as mesmas poucas palavras que decorara. Sua maior curiosidade era conduzir três carneiros pintados com tinta nas cores azul, rosa e preta. Como utilizasse muito a palavra “especial”, que abreviava para “espice”, adveio-lhe o apelido popular.

Pereirão, talvez, fosse o mais visado pela segurança pública, pois não raro era visto na cadeia, situada ao pé do Morro do Bom Jesus, também cognominado de Monte.

Merece destaque a figura de Seu Lau, que lenhador ou não, estava sempre de machado no ombro, portando uma barba desgrenhada e feixes de lenha, os quais, vendidos àqueles que usavam os rudes fogões de antigamente, garantiam-lhe o sustento. Comia, excessivamente, razão pela qual surgiu a ideia de fazê-lo provar, de uma só vez, cinco dúzias de ovos, sendo tão invulgar evento anunciado, reunindo, no centro da cidade, dezenas de curiosos. Muitos fizeram apostas de que cumpriria a invulgar prova, enquanto outros demonstravam sua descrença em tão audaciosa disputa. Todos os preparativos foram elaborados para o êxito do perigoso desafio. Não me encontrava presente, mas soube, depois, que chegou a devorar as quatro primeiras dúzias, demonstrando ser uma verdadeira máquina de engolir ovos.

Antes, porém, de atingir a quinta dúzia, reverteu tudo, promovendo grande correria dos curiosos e até dos apostadores, que não permaneceram no local e, possivelmente, desistiram de receber suas apostas.

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