Rostand Paraíso

Bartyra Soares
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 13/07/2019 03:00 Atualizado em: 14/07/2019 05:52

Foi uma sentença curta, sem apelação. Um problema cardíaco retirou (26 de fevereiro de 1930 / 9 de julho de 2019) Rostand Carneiro Leão Paraíso do convívio com seus companheiros da Academia Pernambucana de Letras, familiares, amigos e profissionais da área de saúde, cardiologista que era.

Não se pode dizer que a sua carreira acadêmica foi curta. Pode-se, quando muito, afirmar que ele poderia ter permanecido por muito mais tempo na APL. Foram 19 anos que ele vivenciou cada minuto da sua vocação de escritor memorialista para pensar, ficar em silêncio, indagar, como se no arranjo bem articulado das memórias, fosse condutor de pinças muito finas a segurar os fatos do passado que ele tão bem retratou, sobretudo, acontecimentos recifenses.

Suas memórias têm uma cosmovisão própria, original, nascidas que são, do trabalho  de juntar responsabilidade, atenção e pesquisas concentradas no fazer profissional de suas obras, no exercício de uma carreira longa no campo da cardiologia, médico competente, escritor ímpar, tendo sido um incansável mestre da palavra e do exercício de auscultar. São de sua autoria inúmeros livros. Chamem-se atenção para Esses ingleses, A velha rua Nova e outras histórias, A indefinível cor do tempo, A esquina do Lafayette e outros tempos do Recife, entre tantos..

Rostand Paraíso esculpiu para a história memórias que, graças ao seu trabalho, o tempo não terá a voracidade de apagar. Serão páginas e páginas para consultas, estudos, pesquisas submetidas a mergulhos nos usos, hábitos e costumes de um tempo que já dobrou as esquinas de décadas.

Quando parte um escritor desse quilate, resta a todos os que tiveram o privilégio de com ele conviver, refletir sobre o que seu desaparecimento muda em nós.

Que forças íntimas ou externas amalgamarão nosso ser de agora por diante? Nas atitudes de Rostand encontraremos aquele jeito agradável, gentil e humano de ser. E certamente relembraremos Exupéry ao declarar: “Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, porque cada pessoa é única para nós e nenhuma substitui a outra. Levam um pouco de nós mesmos e nos deixam um pouco de si mesmos”.

Daí, há que se ter paciência para se suportar o nó na garganta, o desânimo, as mãos frias, a tristeza, a lacuna, porque muito deixou de si Rostand Paraíso. Porque muito colhemos de seu modo de ser empático e amigo.

Há que se ter coragem para mirar a galeria na Academia Pernambucana de Letras dos que já partiram e os rostos dos que ficam.

Há que se pensar nos diplomas da ética, da dignidade, da solidariedade, por ele conquistados, principalmente o diploma da humildade que nunca lhe faltou.

Rostand Paraíso já nasceu médico e memorialista, humano e intelectual. Veio para mergulhar fundo nos ofícios aos quais se dedicou. Veio para trazer de volta com mestria os acontecimentos do passado. Há os que chegam às suas profissões munidos de tais atributos, qualificando a prática profissional. Rostand Paraíso era um deles. O seu legado deverá ser sempre reverenciado. É uma questão de justiça e reconhecimento.

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