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Opinião
Ricardo Brennand, recifense

Heldio Villar
Engenheiro e professor

Publicado em: 04/07/2019 03:00 Atualizado em: 04/07/2019 09:27

A Câmara Municipal do Recife se reuniu em sessão solene no último dia 7 de junho para homenagear o empresário e colecionador de arte Ricardo Brennand. Numa inspirada iniciativa do vereador André Regis, o proverbial “homem que já tem tudo” – uma extensa e bela família, uma saúde de ferro (já é notável chegar aos 92 anos, e mais ainda com aquela cabeça e aquela disposição), bens, prestígio – algo que ele ainda não tinha: o título de cidadão da cidade que ele adotou. E isso se fez diante de familiares, amigos, admiradores, autoridades.

Dr. Ricardo – como é respeitosamente e carinhosamente conhecido – expandiu os negócios da família num conglomerado que emprega milhares e tem participação significativa no PIB pernambucano. Mas sua marca mais indelével é o Instituto Ricardo Brennand, o IRB, um museu afamado no mundo pela riqueza de sua arquitetura e de sua coleção, avaliado por muitos como o melhor do Brasil e mesmo da América Latina. Compartilhar essa riqueza com a cidade do Recife dá uma mostra da grandeza de seu novo cidadão, uma iniciativa que encontra paralelo nas de Calouste Gulbenkian, John D. Rockefeller, Dale Carnegie e outros mecenas modernos.

O IRB era o que faltava para colocar Ricardo Brennand entre as figuras mais representativas do Recife e de Pernambuco, situando-o facilmente num patamar em que avultam nomes como Gilberto Freyre e Joaquim Nabuco. Num mundo em que tudo acontece tão rápido e em que as grandes ações são cada vez mais coletivas, ele certamente está entre as últimas dessas figuras, o que confere à homenagem um caráter todo especial.

Com a palavra, Dr. Ricardo falou de seu trabalho como empresário e da criação do IRB; agradeceu à Câmara e, em particular, ao vereador André Regis, sentindo-se orgulhoso pela homenagem recebida, mas lamentou os desequilíbrios sociais que faziam do Recife “uma cidade isolada desse mundo globalizado” e findavam por situá-lo “a anos-luz” de cidades brasileiras e de países em desenvolvimento. E conclamou “os poderes públicos e privados a elaborar um plano mínimo estratégico, para em 10 anos alcançarmos os níveis de civilidade compatíveis aos centros modernos”. Foi um momento inesperado, porém o mais sublime do evento, em que um nonagenário “com a vida ganha” teve a lucidez e a coragem de, usando a linguagem mais branda possível, exprimir a frustração, a tristeza dos que amam esta cidade, ao ver como ela decaiu. E estes jamais poderiam encontrar um porta-voz tão eloquente quanto o Dr. Ricardo, com a autoridade de quem deu ao Recife a maior contribuição que um cidadão jamais deu.

O lugar e o momento para essa conclamação não poderiam ser mais oportunos, diante dos líderes do Legislativo municipal, representantes do Executivo municipal e também do Legislativo e do Executivo estaduais. É de se esperar que essas autoridades se lembrem de que “civilidade” tem sua raiz no latim “civitas”, que quer dizer “cidade”. Um homem culto, o Dr. Ricardo, de maneira sutil, cobrou as medidas para que o Recife, dentro do conceito moderno, se torne de fato uma cidade. Que as autoridades e que nós todos, conhecedores do ânimo e da vontade inquebrantáveis do novo cidadão recifense, compreendamos que ele tem tudo para se tornar centenário. Assim, ele vai querer testemunhar esse avanço e mesmo se engajar nele. Em assim fazendo, Ricardo Brennand fará seu nome ainda maior. Nada mais merecido.

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