Os dois bairros irmãos e as luzes da cidade

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista
raimundocarrero@gmail.com

Publicado em: 01/07/2019 03:00 Atualizado em: 01/07/2019 09:32

Numa tardinha de março de 1960 cheguei ao Recife pela avenida José Rufino, então corredor de ônibus interiorano, vindo de Salgueiro, desde  o começo do dia anterior na carroceria da caminhonete do seu Audálio e depois num ônibus da Realeza, em Arcoverde, passando pela rua da Concórdia até a Velha Rodoviária, onde hoje funciona a EMTU, espécie de território livre entre os bairros de São José e Santo Antônio- os bairros irmãos de Jacques Ribemboim.

É exatamente sobre estes dois irmãos que quero falar – agora eternizados em livro por Jacques e equipe – Osman Godoy, Ana Pereira, Lorena Veloso, Nicole Costa e Conceição Fragoso. Livro, aliás, muito bem editado em papel couchê, ilustrações coloridas – às vezes num preto e branco documental, fartamente enriquecido.

Quero me reportar, sinceramente, a estes dois irmãos que me ofereceram, de imediato, as visões de um Recife que eu vinha ávido para conhecer, e que eu já vislumbrara tempos antes nas vozes baixas e zelosas das minhas irmãs que costumavam visitar a cidade uma vez por ano, quando vinham para compras, adereços e presentes.

Paramos, finalmente, na Rodoviária, e eu estava quase voando de contentamento quando coloquei os pés do calçamento. Ali começava minha aventura no Recife, com cheiros e sabores diferentes e que me causavam, de imediato, uma esquisita inveja de mim mesmo.

Pareceu-me, e até hoje não sei explicar , uma cidade fartamente iluminada, o que reforçou o meu encanto e a minha inveja. Parece-me que Salgueiro era uma cidade tão pouco iluminada, que o Recife apresentava-se indecentemente iluminada com tantas luzes e tantos clarões.

Um pouco à frente, porém, estavam as ruas, os becos e as vielas escuras, onde as pessoas apressadas desapareciam com rapidez, vultos de uma noite inaugural., porque entramos no Recife à tardinha, mas quando o ônibus parou reinava uma vigorosa noite de sortilégios. Lembro-me de uma mulher que me olhava à distância, mas com um sorriso secreto e perverso. Fiz-me uma pergunta imediata: É assim que as pessoas sorriem aqui? Toda esta carga de emoções voltou desde o momento que tomei este livro às mãos, cuja leitura recomendo com alegria e inquietação porque me vejo começando esta aventura do Recife.

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