'Ô Josué, eu nunca vi tamanha desgraça...'

Túlio Velho Barreto *

Publicado em: 29/07/2019 03:00 Atualizado em: 29/07/2019 11:24

Dias atrás, o ex-capitão do Exército e ex-deputado federal de longa carreira Jair Bolsonaro, no momento sentando na cadeira presidencial, acrescentou duas pérolas ao seu repertório de declarações tolas e manifestações de intolerâncias. Em entrevista afirmou que não há fome no Brasil e, por descuido, nesse caso haja sinceridade, referiu-se aos estados nordestinos e seus governantes como “paraíbas”, dando a expressão claro caráter pejorativo e ignorando as diversidades da região. O comentário serviu também para demonstrar o enorme despreparo em tratar com adversários políticos, sempre vistos como inimigos a serem exterminados. E, como é de seu feiti o, de seu governo e apoiadores, adeptos que são do diversionismo e da propagação de mentiras e falsas notícias, logo tentou minimizar o que todos ouviram e viram acontecer fazendo galhofa dos episódios e assim a alegria de aliados e dos incautos.
Logo me veio à memória um evento recente promovido pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP), o Instituto de Economia (IE-UNICAMP) e a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (FDUSP), realizado em Campinas (SP). A lembrança ocorreu porque os organizadores escolheram exatamente três intelectuais e políticos nordestinos como os temas da I Jornada Intérpretes do Brasil. No caso, o escritor alagoano Graciliano Ramos, que foi prefeito de Palmeiras dos Índios; o cientista e deputado pernambucano Josué de Castro, autor de obras seminais acerca da fome e seus malefícios; e o economista paraibano Celso Furtado, criador e primeiro titular do Ministério do Planejamento e da Sudene Ou seja, três “paraíbas; que honraram não só a região, mas também o país, pelo que produziram como intelectuais e pessoas de ação, todos mundialmente respeitados. O evento ocorreu no Sudeste e foi promovido por instituições ali localizadas.
Em uma das mesas, tive a oportunidade de proferir palestra acerca da atualidade da obra e do pensamento de Josué de Castro, mostrando a contribuição do movimento cultural Manguebeat/Manguebit, liderado pelas bandas Chico Science & Nação Zumbi e mundo livre s/a. E outros expositores e expositoras abordaram a dedicação de Josué de Castro para mostrar a importância de os governos e a academia reconhecerem a existência da fome - e não como um fenômeno natural, mas social - diante do tabu que o tema já representava. Para ele, só reconhecendo tal existência seria possível combatê-la e erradicá-la. Cassado e expulso do país pelos militares logo após o golpe de 1964, Josué de Castro dedicou-se à mesma tarefa no exterior, ocupando relevantes cargos em organismos de cooperação internacional, como a Presidência do Conselho Executivo da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), além de se dedicar ao ensino universitário na França.
Morto no exílio, em 1973, Josué de Castro, sua obra e pensamento ficaram no limbo durante muitos anos até que o movimento Manguebeat/Manguebit os trouxessem à tona. Na ocasião, início dos anos de 1990, suas principais obras foram reeditadas, entre elas o clássico A Geografia da Fome, de 1951, e o seu único romance Homens e Caranguejos, de 1967, que seria referência para canções de Chico Science e de Fred Zeroquatro. Dez anos depois, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, reconhecendo a existência da fome entre nós, adotou uma série de medidas para erradicá-la, fazendo com que os organismos internacionais excluíssem o Brasil do Mapa da Fome, situação em que houve retrocesso diante das políticas liberais adotadas no país a partir de 2016. Portanto, ao não reconhecer tal fato, o atual governo mostra o descompromisso com os segmentos socialmente mais vulneráveis e, como consequência, com políticas públicas inclusivas, quase todas abolidas. De fato, como um dia cantou Chico Science, pode-se repetir: “Ô Josué, eu nunca vi tamanha desgraça, quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”. A miséria sabe-se onde existe e como combatê-la, bem como quem são e onde estão os atuais urubus, e a dimensão e as consequências das ameaças que pairam sobre o país e as populações socialmente mais vulneráveis.  

*  Cientista político e pesquisador social (Fundação Joaquim Nabuco)

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.