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Opinião
Melhor idade, bibliotecas, Ionesco e senadores romanos

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 30/07/2019 03:00 Atualizado em: 30/07/2019 09:30

Vejo na telinha um bando de membros de idade provecta - Rachel de Queiroz, entre séria e brincalhona, gostava desse termo e dele se serviu ao relator o presente que recebeu de Oyama, o companheiro, uma cadeira de balanço, quando ela entrava na tal, chamada de melhor idade (pois sim). O grupo televisivo se esbaldava em ginásticas, gestos graciosos ou nem tanto, todo mundo risonho, vivam eles. Mas falo nisso porque, estar aposentado tem dessas coisas boas, entre as quais o escolher as horas da malandragem, ler o que se quer, em horas indevidas, em noite de insônia, por exemplo. Arrumar ou desarrumar a biblioteca, pegar livros ao acaso, mergulhar num autor de quem se esquecera, fazer leituras simultâneas, pular de um livro a outro, quem tem nada com isso? Outro dia mesmo, tentando estabelecer certa ordem na desordem da biblioteca (após trabalhos indispensáveis nos forros habitados por cupins de que o bairro de Casa Forte é pródigo), esta cronista se achou lendo, melhor, relendo, ao mesmo tempo textos em latim e uma peça de Eugène Ionesco, aquele do chamado Teatro do Absurdo, cuja Cantora Careca esteve em cartaz por décadas no Théâtre de la Huchette, em Paris, e que esteve no Recife, há uns anos, trazido por Gilberto Freyre, imaginem. A saudosa Maria do Carmo Miranda tinha me convidado a participar da mesa na Fundaj, com o grande teatrólogo, convite recusado, minha amiga, quem sou eu pra traduzir Ionesco, comentar Ionesco, um ídolo. Mas Miranda foi inflexível e no fim das contas acho que dei o recado, e num jantar em casa do cônsul da França, o autor de O Rinoceronte se revelou leve, fácil, divertido. Interessado por nossas coisas., inclusive por casquinho de siri.

Mas eu falava de encontrar livros esquecidos em meio ao acervo que se reuniu ao longo da vida. Foi assim que na semana passada encontrei Traduções dos textos latinos, comentados por José Lodeiro, um regalo. Ali estão cartas e poemas de Ovidio exilado, chorando a ausência dos seres amados e a distância da pátria. Provérbios latinos, fábulas de Fedro que hoje as crianças estudam sem saber que alguns livros infantis atuais retomam a desventura da rã que queria ser maior do que o boi, e outras. Trechos da história romana e sobretudo os discursos de Cícero no senado romano, contra o traidor Catilina, que a gente estudava com o professor José Lourenço, no Instituto de Educação: e agora, um parênteses: os países que entendem a importância do Latim para o conhecimento de nossa civilização ocidental, conservam o estudo dessa língua, tão formadora para a organização mental, quanto a matemática, por exemplo. Falando aos senadores, Cícero dirigia a Catilina imprecações que a gente decorava: Quousque tandem abutere, Catilina, nostra patientia? Quandiu etiam iste tuus furor eludet nos? Até quando, enfim, abusarás Catilina de nossa paciência? Por quanto tempo ainda este teu rancor zombará de nós? O professor recitava, com voz vibrante e a gente repetia, nós alunas nos sentindo in hic locus senatus habendi, omnium bonorum (naquele lugar onde o senado se reunia, em meio a todos os bons) Perdoem: a vaidade da citação na língua original, é um tributo ao professor José Lourenço, a quem uma inteira geração de recifenses tanto deve.

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