Medicalização na velhice

Meraldo Zisman
Médico psicoterapeuta

Publicado em: 23/07/2019 03:00 Atualizado em: 23/07/2019 10:02

Tenho observado nas prescrições médicas a ampliação da medicalização dos velhos, principalmente de psicotrópicos (tarja preta), ‘contra a depressão’. Do ponto de vista semântico o vocábulo depressão é originário do Latim “depressione” e significa: distúrbio mental caracterizado por adinamia, desânimo, sensação de cansaço e cujo quadro muitas vezes inclui também ansiedade, em grau maior ou menor. De tanto ser empregado, o termo passou a significar tristeza, luto, perda, sentir-se infeliz, jururu. Chamo desde logo a atenção para o fato de que se sentir triste, privado de determinada satisfação pessoal ou emocional é uma reação normal do organismo diante de perdas, fracassos, lutos ou tristezas. Depressão é uma patologia.

Tristeza, infelicidade, são manifestações inerentes à vida do ser humano e têm duração limitada. São sentimentos passageiros e devem ser aceitos como lenitivos, pois auxiliam a pessoa a elaborar as perdas, fazendo com que o indivíduo se reorganize internamente e supere essa fase difícil, servindo ainda algumas vezes de lição.

A depressão ocorre quando a tristeza persiste e há profundo sentimento de apatia, indiferença, desesperança, ausência de perspectiva e prazer. Essa confusão semântica explica porque a tristeza profunda ou a insatisfação com a vida passaram a ser uma patologia listada na Classificação Internacional das Doenças (CID) e como tal de reponsabilidade médica. Ganhou até garantia Constitucional: A Saúde é Direito de todos...

Compete ressaltar que muitos dos sinais e sintomas da depressão podem ser confundidos com outras patologias ou desencadear queixas e problemas somáticos (somatizações), trazendo consequências drásticas para as pessoas. É comum que apareça um sentimento de que familiares e conhecidos não dão importância ao seu ‘caso’, um sofrimento que pode tornar-se em fator de risco de morbidade e até de suicídio, principalmente nos idosos.

Sei como é complexo o ajustamento das pessoas idosas ao contexto de vida dos mais jovens e da dificuldade em aceitar os tempos diferentes do hodierno.

Na velhice há uma forte tendência ao abatimento, tendo em vista a grande quantidade de fatores que levam o ancião a desencadear sentimentos negativos, tais como o isolamento, o que por vezes culmina em depressão verdadeira.

A perda da independência e a inapetência dos velhos para representar o novo papel social que lhes cabe, acabam por rotulá-los de depressivos, uma classificação tentadora, pois a medicalização social é fato. O número de suicidas está aumentando cada vez mais. O que encontro na maioria das vezes e dos casos, não é depressão e sim um abuso de diagnóstico, um excesso de medicalização, desnecessária nessa etapa da vida que hipocritamente apelidaram de melhor idade...

O idoso dá trabalho aos familiares e o diagnóstico de depressão passou a ser outro carimbo explicativo da tristeza pelo envelhecimento e ademais uma válvula de escape para os familiares e profissionais da saúde levando, não poucas vezes, a internamentos desnecessários. A alguns que não vão comigo concordar apronto e parto para a pergunta. Será que essa mercantilização médica e social do idoso não seria uma das piores formas de violência para com os velhos? Pessimismo meu? Que o seja, pois assim talvez os velhos passem a ser mais valorizados.

Como vivemos nessa coletividade de consumo que leva à supermedicalização dos idosos, sua valorização seria alvissareira, para deixarem de ser consumidores de remédios, medicamentos, leitos hospitalares e UTIs. Basta olhar para o enxame de farmácias que apareceram nas nossas cidades, para os planos de saúde de preços estratosféricos e para as antessalas luxuosas dos hospitais particulares/credenciados pelos planos de saúde mais caros e das UTIs superlotadas de doentes que melhor estariam com pessoas que fazem parte do seu circuito afetivo, ao invés de estarem violentados por tubos e aparelhagem manobrados por estranhos.

Concluo com o significado do vocábulo medicalização: Em geral, a medicalização denota algo suspeito derivado da criação ou incorporação de um problema “não médico” ao aparato da Medicina. (ROSE, 2007a).

Conferir: Nikolas Rose’s The Politics of Life Itself, biomedicine, power, and subjectivity in the Twenty-First Century. Oxford: Princeton University Press, 2007b. 

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