Macri, um fracasso na beira do sucesso

Ignacio Lautaro Pirotta
Cientista político

Publicado em: 15/07/2019 03:00 Atualizado em: 15/07/2019 10:14

Ao chegar ao governo, Macri disse que queria ser avaliado em função da redução ou não da pobreza. Três anos depois, esta foi de 29% quando assumiu em 2015, para 35% em julho de 2019, segundo a Universidad Católica Argentina. Nos próprios termos impostos por Macri, seu governo foi um fracasso.

A pouco menos de um mês para as eleições primárias da Argentina (dia 11 de agosto), as pesquisas de intenção de voto mostram um virtual empate entre Mauricio Macri e Cristina Kirchner (candidata a vicepresidente) no segundo turno. Após ganhar as eleições legislativas de meio termo contra Cristina na Provincia de Buenos Aires em 2017, a forte crise econômica iniciada nos meses seguintes atingiu a popularidade de Macri e pareceu estragar o plano de reeleição. Hoje, a estabilidade (frágil) do dólar o coloca com uma leve vantagem sobre Cristina. Apesar da crise, Macri está perto da reeleição.

Mas, independente do sucesso ou fracasso nestas eleições, de fato a crise já produziu uma derrota política inegável para Macri: o fracasso -por enquanto- de consolidar uma identidade política forte. O governo de Mauricio Macri teve dificuldades em dotar de conteúdo positivo seu governo. Se a campanha para presidente em 2015 foi construída a partir de mensagens de esperança (o slogan era “a revolução da alegria”) desde o início do governo a agenda foi a de mudanças econômicas ortodoxas e a implementação do ajuste, começando pela eliminação gradativa dos subsídios aos serviços públicos. A inflação, a perda real dos salários, a crise do setor industrial e das pequenas empresas marcaram seu governo e o discurso rapidamente virou da “revolução da alegria” a pedir “esforços” à população. A crise iniciada em 2018, com a desvalorização do peso, piorou as coisas. Hoje, até muitos dos eleitores (e empresários) que votaram em Macri avaliam como ruim seu governo. Em função do fracasso econômico, há uma dificuldade de consolidar a identidade política do macrismo, dotá-la de um conteúdo positivo.

Hoje um dos principais motivos pelo qual muitos eleitores apoiam um segundo governo de Macri é para evitar o regresso do kirchnerismo. Macri foi bem sucedido em representar o antikirchnerismo.

Passado um primeiro momento de mudança radical do discurso (da “alegria” aos “esforços”) a agenda foi coerente com o pensamento econômico ortodoxo e contrário ao modelo estatista e mercado internista do kirchnerismo. Redução do déficit, eliminação de subsídios a serviços públicos, liberação do tipo de câmbio, entre outras medidas na mesma direção, são bem avaliadas por uma fatia importante da população.

Partindo dessa ortodoxia econômica, e apesar de algumas suspeitas de corrupção (Panamá papers, dívida do Correo Argentino da família Macri, por exemplo) e algumas iniciativas com pouco respeito às instituições (intento de nomear ministros do Supremo via decreto, ou mudanças no sistema eleitoral a meses das eleições) o macrismo têm sido efetivo em instalar a confrontação em termos de “populismo” versus “república”. A polarização com o kirchnerismo nesses términos é a chave para o sucesso eleitoral de Macri.

A situação econômica e social, mais a imensa dívida externa contraída com o FMI, serão os principais desafios do próximo governo. Se reeleito, Macri deverá oferecer soluções aos problemas dos argentinos antes de que o sucesso das eleições vire novamente fracasso na gestão de governo. Dessa vez, já sem margem para pedir esforços à população. Por enquanto, Mauricio Macri é um fracasso na beira do sucesso.

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