Fernando Pessoa na voz de Maria Lecticia e José Paulo

Marcus Prado
Jornalista

Publicado em: 31/07/2019 03:00 Atualizado em: 31/07/2019 09:53

Na condição de leitor do Suplemento Literário do jornal português República, de Lisboa, tive a oportunidade de iniciar uma vasta correspondência com o seu editor, meu saudoso amigo Alfredo Guisado, de ascendência Galega, poeta, deputado, político ativista e jornalista. Foi o último da Geração Orpheu. O jornal chegava às minhas mãos através do cônsul de Portugal e poeta Carlos Lemonde de Macedo e da Livraria Camões/Gabinete Português de Leitura, do Recife, quando era seu dirigente o saudoso amigo, comendador Alfredo Xavier Pinto Coelho Affonso, e seu gerente, o irrequieto e atuante José Manuel Estrela. Uma livraria que faz enorme falta entre os pernambucanos amantes da literatura portuguesa. A presença de Alfredo Guisado foi marcante na edição nº 1 da famosa (e polêmica) revista Orpheu, sendo considerado o mais injustamente esquecido poeta de sua geração em Portugal, embora tenha sido autor de vasta obra no campo da poesia e um dos mais próximos amigos de Fernando Pessoa. Como editor do suplemento literário soube trabalhar com todo fervor e competência na divulgação do movimento cultural que marcou época, a Geração Orpheu. O suplemento do República teve um papel importante na formação de duas gerações de intelectuais de Portugal no âmbito da crítica literária e do ensaio político. O suplemento do República era o reduto de jovens escritores rebeldes, jornalistas e políticos de esquerda como Mário Soares, Urbano Tavares Rodrigues, Eduardo Prado Coelho, Maria Ondina Braga, Natércia Freire, entre outros. Tenho carta de Mário Soares, quando presidente da República, dando testemunho da importância que Alfredo Guisado teve para os movimentos literários de contestação e rebeldia em Portugal, antes e depois da Revolução dos Cravos.

Morando numa cidade do interior de Pernambuco, iniciante no jornalismo cultural, tornei-me, através de Alfredo Guisado, um dos seus colaboradores, escrevendo sobre livros e autores brasileiros do meu tempo. Não conto as vezes em que Alfredo, nas suas cartas, lamentava inexistir, naquela época, “estudos críticos de bom nível, no Brasil, sobre a obra singularíssima desse monstro sagrado da poesia de expressão portuguesa: Fernando Pessoa”. O tempo passou, o jornal português deixou de circular, o seu editor literário não mais existe. Hoje, eu teria muito a dizer ao saudoso jornalista, que o poeta dos heterônimos teve, no Recife, dois fervorosos leitores e profundos estudiosos: Alfredo Antunes, com Saudade e Profetismo em Fernando Pessoa (uma tese de doutorado) e José Paulo Cavalcanti Filho, com o seu monumental Fernando Pessoa, uma quase biografia. José Paulo é o que mais tem se debruçado, sem interrupções, na prospecção biográfica, nada fácil, desafiadoramente múltipla, do poeta máximo do modernismo e do seu tempo português. Legitimados por uma vasta gama de fontes, não meramente cronológicas, os dois autores, (cada um no seu campo específico de abordagem) abrem e ampliam novas dimensões para os estudos pessoanos. O livro de José Paulo será visto como a mais completa biografia feita até hoje de Fernando Pessoa. É uma obra de pesquisa, de base erudita, que faz lembrar a monumental biografia do estadista inglês e prêmio Nobel de Literatura, Winston Churchill, de qualidade inultrapassável, feita por Martin Gilbert, em dois volumes; e a biografia de Liev Nikoláievitch Tolstói, de autoria de Pável Bassinski. O resultado veio com a recompensa de honrosas premiações no Brasil e em Portugal. Não satisfeito, José Paulo construiu um novo e ousado projeto editorial, dessa vez em parceria com sua esposa, Maria Lecticia Cavalcanti, escritora, imortal da APL. Trata-se de um bloco de poemas curtos de Fernando Pessoa, numa edição surpresa, de extremo bom gosto editorial, trazendo em anexo um CD em que se ouve o poeta na voz de Maria Lecticia e de José Paulo. Se fosse vivo, Alfredo Guisado não teria mais o que reclamar da inteligência e dos leitores brasileiros do autor de Mensagem.

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