Doação e alteridade

Ana Pontes
Doutora em Educação, professora da UFRPE

Publicado em: 06/07/2019 03:00 Atualizado em: 08/07/2019 09:12

Duas experiências me colocaram entre doar e receber. Uma me ensinou que quase tudo pode ser doado. Outra, que coisas inúteis não devem ser doadas. Mas tudo pode ser útil. Contraditório? Em uma ponta e em outra dessa ponte, o segredo é atravessar com os passos da empatia até a alteridade.

Trabalhava em uma ONG e realizava oficinas apoiando uma creche em comunidade canavieira. Parecia simples. Não era. Crianças extras apareciam. Crianças com fome. Fomos aprendendo. Acolher, trazer ingredientes, contratar mãe para fazer lanches.

Trabalho? Muito. Mais do que lanches industrializados e barrar crianças, escolher o caminho fácil. Em uma tarde, apontava o material farto quando a cuidadora mostrou aparas coloridas de lápis de cor: queria tanto fazer colagens mas – sala cheia, lápis poucos – não tinha para contemplar a criançada. Jamais me ocorrera doar aparas de lápis. Quase tudo mesmo pode ser doado.

Conversamos pouco: a porta se abriu e um senhor com deficiência em situação de rua interpelou-me sobre o bolo, já devorado pela turma. Chorando como a criança mental que era, ignorou as confrangidas desculpas e debruçou-se sobre os farelos no chão enquanto eu atônita tentava erguê-lo. Manuel Bandeira me acordava: “o bicho, meu Deus, era um homem.”

Por experiências assim e lembranças de um avô, hoje intermedeio doações. Uso meu tempo e meu carro que não são grandes.

Notícia recente revelou que 31% das peças doadas em Campanha do Agasalho eram inservíveis. De 57 mil peças de agasalhos, calçados e cobertores, quase 18 mil rasgadas, sem par.

Fez recordar que em nome de quem precisava, aprendi separando roupas em enchentes a receber estoicamente roupas sujas, até de fluidos pessoais. Iriam direto para quem nem água potável para sede tinha. Tornava menos digno e mais demorado um trabalho emergencial. Chegaríamos mais cedo se houvessem doado itens em grupos de peças similares, sacos identificados, calçados presos em pares, meias uma dentro de outra. Lembre que é preciso destinar centenas de itens.

Doar à causa certa, encontrar quem precise do item, sem emular generosidade por desejo de consumir sem culpa é estabelecer uma ponte real. O sentido de doar não é desocupar sua casa, mas passar adiante o que é útil.

Há quem jogue fora e diga “logo alguém recolhe”. Confortavelmente esquecem que fazem a quem sofre catar no meio da imundície. É falsa piedade: “me importo”, mas não doo meu tempo. Outros fazem como os 31%: “para quem é, tudo serve”. É “quase caridade”, não alcança a empatia: já doei, não importa se alguém terá de triar, limpar, consertar e encontrar a pessoa certa. É a doação “sunga em campanha do agasalho”.

Há empatia atravessada: “só doo o que usaria”. A vida, porém, não é nossa régua. A camisa velhinha, limpa, mesmo manchada, é útil em hospitais psiquiátricos públicos onde alguns pacientes em crise rasgam roupas. Serve em abrigos de animais para aquecer caminhas. Livros para escolinhas rurais, penitenciárias, cursos pré-ENEM periféricos. O isopor velho para um pai tentando vender água, o inalador de seu filho curado para uma mãe sofrendo para descer o morro até a UPA com o dela.

Requer buscar o outro, organizar, doar certo. Implica algo mais que roupa: tempo, afeto. Alteridade: ir além do meu mundo, ir ao outro, sabendo que ele não é projeção de mim.

Qual o limite de sua generosidade?

(Sugestões para doações eficientes: https://is.gd/doacaoeficiente)

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