De trovão, relâmpago e do medo

Vladimir Souza Carvalho
Presidente do TRF 5ª Região

Publicado em: 18/07/2019 03:00 Atualizado em: 18/07/2019 10:00

De trovão e de relâmpago, sempre tive medo. Não adianta bancar o machão, porque teria de incidir na mentira, no que não fica bem na minha idade. O medo deve ter vindo no sangue, alimentado durante toda a infância pelo corre corre de desligar o rádio e, depois, a televisão, para evitar  algum dano, no momento das trovoadas. O certo, e real mesmo, é que não há mais remédio que debele esse medo.

Ser atingido por um raio é morte certa. Lá para os idos de 1962, dois  rapazes, de minha idade, estavam vendo um jogo do Itabaiana, pendurados no muro do campo de futebol, tendo um deles sido atingido por um raio. O outro, escapou.

Muitos anos depois, já juiz de direito, ante a reclamação de credora em ação de alimentos, no sentido do devedor estar atrasando o pagamento, mandei intimá-lo para demonstrar que tinha pago ou comprovar a impossibilidade. O devedor compareceu ao Fórum, e, aliás, no aspecto, foi o primeiro que assim o fez. Me explicou que não estava trabalhando, em função de ser época de lua cheia ou de lua nova, não me lembro mais, quando tinha dores de cabeças horríveis, e, então, explicou que fora tocado por um raio, a partir de quando, então, as dores de cabeça surgiam com a chegada da lua cheia ou nova.

Perguntei-lhe se tinha marca no corpo decorrente do raio. Resposta positiva. A porta foi fechada e o devedor ficou só de cuecas. Pude ver a barriga toda marcada por traços amarelados, salvo engano, no que me lembrei da casca do cágado. Parecia. Evidentemente que não foi um raio que, em cheio, lhe atingiu, mas, apenas um pedaço diminuto de um raio, ou mera faísca, senão teria se transformado em um monte de cinzas.

O fato não aumentou nem diminuiu meu medo. Apenas, me deu uma exata dimensão da força que o raio carrega, estendendo seus efeitos por muitos e muitos anos. Mais ou menos, como ouvi muito, quando em criança, em Itabaiana: quando não mata, aleija.

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