Carta pra Célia

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 16/07/2019 03:00 Atualizado em:

Minha amiga, você acaba de sofrer uma grande perda, a de um companheiro de mais de sessenta anos, seu esposo Rostand Paraíso, que nos deixou chorosos e surpresos, na semana passada. Cardiologista, ao qual tantos recifenses devem anos de vida e sobrevida, Rostand foi também um escritor. Relator de parte da história do Recife, desde um passado remoto, até aquele em que aqui chegaram ingleses, franceses e seus descendentes que instalaram fábricas, inventaram meios de transporte na cidade que se modernizava, criaram escolas, hotéis e pensões, ou judeus livreiros, um deles pai daquela menina que não queria emprestar um livro à colega Clarice Lispector. Em obras que reúnem a seriedade da pesquisa e o memorialismo mais comovido, Rostand contou nosso passado mais recente. Títulos como A velha rua Nova e outras histórias, Antes que o tempo apague (crônicas dos anos 40 e 50), O Recife e a II Guerra Mundial, A esquina do Lafayete e outros tempos do Recife, Charme e Magia dos antigos hotéis e pensões recifenses, relataram nossa memória, nossa gente, nossos feitos maiores ou menores. Biógrafo, Rostand narrou a vida de uma certa Velha senhora e até celebrou um de nossos mais aguerridos defensores da cidade, o cronista e jornalista Mário Melo, que não aplaudia a paixão das gentes pelo futebol, comentava a sujeira das vendas de especiarias na antiga rua das Florentinas (recordo, eu menina, sua fala arrastada criticando o cheiro das cebolas). Em seu livro intitulado Cadê Mário Melo..., Rostand nos constrói, de modo delicioso, aquele amante ferrenho do carnaval recifense de outrora, participante de antigos blocos de rua, que lançaram o frevo canção, que Rostand retoma: “Cadê Mário Melo, partiu para a eternidade”, pedindo aos foliões sua reverência. Além de toda essa bagagem de recifense autêntico, um dos mais importantes títulos de Rostand foi o de Membro da Academia Pernambucana de Letras, e seu secretário, por vários anos. Sempre fiel a sua vocação, escreveu nossa história, que nos entregava a cada reunião, em efemérides que pontuavam nossa existência, ao longo dos anos. Presença permanente nessas reuniões, nos últimos anos, e acho que isso você não sabia, querida amiga, ele pedia licença para sair antes do final da reunião, “Célia está sozinha em casa,” num gesto de um amor nunca desmentido na vida de vocês. Malherbe, o poeta francês, escreveu, nos finais do século XVI, em longo poema, versos que se tornaram conhecidos, repetidos, decorados por escolares e amantes da literatura e da vida. Chamava-se Consolation à Monsieur Du Périer sur la mort de sa fille. A filha do magistrado, Rosette, falecera aos quinze anos de idade. Malherbe tenta consolar o pai, com uma diatribe contra a morte, personagem cruel cujo rigor a gente não entende. Escreve: “Mas ela estava no mundo, onde as mais belas coisas têm o pior destino”. E acrescenta “E rosa, ela viveu o que vivem as rosas, o espaço de uma manhã”. Rostand esteve conosco, por muito anos, bem vividos. Mas para nós que fomos seus amigos, pra você que o amou e ama tanto, esses 89 anos foram apenas o espaço de uma manhã. 

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