Diario de Pernambuco
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Opinião
Caminhos da retomada

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois e presidente do Diario de Pernambuco

Publicado em: 20/07/2019 03:00 Atualizado em:

Após a aprovação da reforma da Previdência na Câmara, o governo federal começa a pensar em como estimular a economia. O cardápio de alternativas já está em discussão. Há medidas de curto prazo como a liberação de saque de parte do FGTS com vistas a estimular o consumo, ou a aceleração das concessões e leilões de áreas do pré-sal, com o objetivo de estimular o investimento. Somam-se a essas medidas as perspectivas de redução da taxa de juros pelo Copom, dados os níveis baixos de inflação. Há também várias propostas de medidas estruturais, como a reforma tributária, possivelmente contendo uma nova CPMF, ou a MP da Liberdade Econômica, que já está no Congresso. Além disso, a regulamentação de setores estratégicos, como óleo e gás, portos e energia estão também na agenda. As relações com o Mercosul e o acordo Mercosul-União Europeia, por sua vez, estão trazendo perspectivas liberalizantes nas relações internacionais. Isso também deverá gerar uma onda de investimentos para ajustar as estruturas produtivas à nova realidade de competitividade internacional. Apesar do predomínio de medidas estruturais, as de curto prazo deverão trazer efeitos mais imediatos.
Boa parte dessas medidas são bem-vindas, pois poderão não só gerar efeitos macroeconômicos de curto e médio prazos no emprego e na renda, mas também aumentarão a capacidade de crescimento de longo prazo. Na Medida Provisória da Liberdade Econômica, por exemplo, reduz-se as exigências burocráticas para pequenas empresas, como a necessidade de aprovações de projetos desnecessários e restrição do tempo para aprovação de demandas ao setor público, criando a aprovação por decurso de prazo. O fim do e-social também vai reduzir os custos operacionais das empresas, pois sua concepção não passou de um surto autoritário da Receita Federal.
Uma entre as medidas propostas, contudo, vai dificultar a vida das empresas e terá consequências nefastas para a produtividade e o crescimento de longo prazo no Brasil, caso venha a ser implementada. É a volta de um imposto sobre a movimentação financeira, nos moldes da antiga CPMF. Esse tributo restringe o fluxo de pagamentos bancários, levando os agentes econômicos a perderem muito tempo tentando reduzi-lo. Os pagamentos realizados em dinheiro aumentarão, inclusive com consequências perversas para a segurança. Por incidir em cascata (imposto sobre imposto), ele impacta negativamente a divisão do trabalho, criando cadeias produtivas mais simples e frequentemente menos eficientes. Além disso, ele reduz a concorrência, por tornar transações que possam ser pagas em dinheiro relativamente mais competitivas. Sua volta vai ser perversa e vai na direção contrária ao que se precisa no Brasil, que é a eliminação do IOF, outra excrecência introduzida pelos burocratas e que só eleva a taxa de juros na economia, contrariamente ao que é necessário para elevar o ritmo de crescimento do PIB.
Apesar de falhas preocupantes como a possível volta da CPMF, a agenda econômica liberal do governo, quando conduzida pelos seus técnicos, tem sido razoável e tem contrastado com a agenda conduzida a partir das forças políticas do governo, mesmo que tenham natureza econômica, como é o caso da agenda ambiental e as relações internacionais com os diversos órgãos multilaterais. Essas muitas vezes refletem um lado conservador e atrasado do governo atual. Na economia, a grande ausência é de uma agenda distributiva forte, pois um país não pode crescer de forma estável com uma concentração de renda como a que temos no Brasil. A reforma da Previdência vai distribuir renda, mas ainda de forma tímida, dadas as necessidades do país.



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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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