Alcázar: nós contra eles

João Bosco Tenório Galvão
Advogado

Publicado em: 10/07/2019 03:00 Atualizado em: 10/07/2019 10:10

Toledo, uma bela cidade medieval espanhola, terra de harmonia entre judeus, muçulmanos e cristãos, com suas mesquitas, sinagogas e igrejas, onde viveu El Grego, pintor, e onde deixei, em várias visitas, pedaços de mim. Porém, nem sempre foi cidade de harmonia. No dia 26 de julho de 1936, há exatos 83 anos, viveu a cidade um dos episódios mais dramáticos da Guerra Civil Espanhola. Guerra do NÓS CONTRA ELES, como toda guerra fratricida. De um lado, comunistas, anarquistas, republicanos, direitistas e suas múltiplas correntes; do outro, católicos fundamentalistas, direita monarquista, direita ateia, conservadores, tudo do mesmo modo dividido em múltiplas facções. As ruas de Toledo e cidades vizinhas presenciavam as maiores expressões da bestialidade humana, manifestadas por todas as correntes em litígio fraterno. Freiras e frades, padres e bispos, coroinhas e beatos, comunistas e ateus, ninguém escapava das insanidades, pois todos os lados acreditavam serem portadores das melhores razões. Frades e freiras eram sumariamente fuzilados e seus corpos violados e exibidos sob diabólicos rituais de vitória, pois, inertes, serviam de pares em danças necrófilas. Comunistas e afins não tinham melhor sorte, pois eram combatentes do capeta. Até uma imagem do Cristo Rei foi fuzilada num desafio às coisas lá do céu. A fortaleza de Alcázar, edificação do século II d.C, cercada pelos inimigos da monarquia, resistia heroicamente com armas e orações, tornando-se protagonista  de um dos  dramas mais marcantes do período que antecedeu a última Grande Guerra. Na Espanha de 1936 imperava a mais absoluta intolerância fratricida e nessa luta não se faziam prisioneiros, pois as virtudes do perdão e da tolerância não são práticas de guerras. A Fortaleza de Alcázar, sob o comando do general Moscardó, sofria forte assédio militar dos canhões republicanos, do corte de abastecimento, num verdadeiro milagre da resistência católica e monárquica, sob a inspiração do Cristo Rei que conferia à resistência uma certeza do vigor divino. O telefone toca e era o comandante das forças opostas ao Cristo Rei, General Cabello, que aprisionara Luiz, filho primogênito do general Moscardó, e condicionava a sua sobrevivência à rendição da Alcázar até o fim do dia. Comprovando a detenção do primogênito por sua fala ao telefone, o general, em diálogo com o filho, ouviu dele a súplica de não atender à ameaça. O pai, vendo concreta a possibilidade do fuzilamento, despediu-se do filho abençoando-o, recomendando-lhe um brado de VIVA A ESPANHA e, falando em seguida com o general Cabello, disse-lhe da sua renúncia ao prazo da redenção.
Essas guerras fratricidas sempre começam com as sociedades divididas entre Nós e Eles.

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