A parceria

Gilberto Marques
Advogado criminalista

Publicado em: 11/07/2019 03:00 Atualizado em: 11/07/2019 09:30

Vinicius de Moraes criou um encantamento ímpar. Enfrentou a ditadura cantando em público. O Itamaraty exigiu que usasse paletó nas apresentações. Também recomendou a abstinência do cigarro e do copo. O poetinha até que tentou obedecer. Não deu certo. A demissão, bicho papão do funcionário público, foi comemorada com Chivas Regal. O silêncio de João Gilberto, anos seguidos, é como se ressaltasse a falta de Vinicius e Tom. Sacramentou com a despedida de Miúcha. Imagino o gênio rebelde solfejando no leito: “Chega de Saudade!”.

Elizeth Cardoso entrou na parceria. Mas faltou logo. Cantaram juntos: “Rua Nascimento Silva, 107, você ensinando pra Elizeth as canções do amor, do Amor Demais”. Enfim uma Academia de música e vida, de sentimento e humanidade. Lembro-me aos treze anos, tentando imitar a batida de João. Também cantando baixinho. Só cantava Vandré na rua, mesmo assim papai dizia: não grite.

João cantava fraco – pianíssimo. Falava forte e ia pra casa no meio do show. Reclamava até da frieza do ar-condicionado. Alegando que o frio desafinava os instrumentos. Em certa ocasião perguntou, ao maestro, em voz alta, o prejuízo do violão. O tom era miúdo no compasso. Todavia, era tímido o tempo todo. Uma mistura de autista e artista. Tinha medo de multidão, apesar de encher o palco. Era comum cantar sozinho, ele e o piano. No entanto, também se apresentava com grande orquestra. O Teatro Municipal do Rio foi o Avant Première que jamais esqueceu a Bossa do baiano, que virou Bossa Nova. Sem esquecer que a turma era muito boa.

Andou pelo mundo afora, mas se trancava no quarto, e passava dias cantando a mesma canção. O preciosismo exigia um treinamento ostensivo. Imagino, por melhor que seja a melodia, a letra, o jeito de cantar repetido, vinte e quatro horas, é demais. O mundo perdeu um grande artista. Mas o artista se perdeu no quarto anos antes. Que pena.

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