Diario de Pernambuco
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Opinião
A obra piramidal de Brennand

Plínio Palhano
Artista plástico

Publicado em: 02/07/2019 03:00 Atualizado em: 02/07/2019 16:34

Conheci a Oficina Cerâmica Francisco Brennand ainda na década de 1970. Fui levado por José Cláudio, quando desfrutava de uma convivência quase diária com ele, que, naquela ocasião, disse: “Essas obras só têm paralelo, no mundo, quanto à expressão, com as de Miró...”. Na entrada, percorremos os corredores da oficina na presença dos painéis cerâmicos fixados nas elegantes paredes e de esculturas de mesma matéria, dispostas nos espaços apropriados para ali permanecerem numa harmonia arquitetônica acentuada com as curvas orgânicas das peças. Permaneci atento no olhar e num silêncio perturbador. Chegamos à sala em que Brennand se encontrava; ainda é o seu pequeno ateliê dentro da monumental Oficina, onde realiza parte de sua obra pictórica, recebe visitas, tem seus livros eletivos e desfruta de um ambiente próprio para mergulhar numa reflexão permanente, digna do criador que possui pleno domínio do seu pensamento e da sua obra. Um encontro agradável, principalmente, para ouvir o artista.

Desde então, fui um frequentador para me alimentar, eventualmente, das explanações de Brennand, daquela graça transformadora das esculturas, dos painéis cerâmicos e de toda a estrutura da Oficina integrada à paisagem. Oportunidades que não ficaram como lacunas, mas enriqueceram a percepção do jovem artista, bebendo das fontes disponíveis. Ainda não era no espaço em que está hoje; iria começar a grande Muralha Mãe Terra, de uma beleza estonteante, ao lado da parte central da Oficina, onde estão o Pátio de Esculturas, o Ovo Primordial e, claro, as outras instalações posteriores, como a Accademia – a pinacoteca das obras de Brennand –, a Capela Imaculada Conceição e outras. Tudo remonta à cultura das civilizações grega, romana, medieval e contemporânea. Lembra a eternidade da matéria que se transforma pelo poder do fogo. Formas que incitam a imaginação e são inspiradoras. Quando conhecemos toda essa concepção, jamais esquecemos a impressão que marca o espírito do espectador e permanece mutável como a criação em movimento na mente do leitor.

Com uma obra piramidal consolidada, tendo a pintura como ápice, Francisco Brennand nos presenteia com a publicação do seu diário, cujos três primeiros volumes intitulou O nome do livro, lançado no auditório da Oficina, em dezembro de 2016, com a presença de um público numeroso, apreciador do artista e pensador. O autor é, acima de tudo, um pintor e mostra isso no olhar, na sensação, na concepção e na percepção da obra alheia, principalmente dos artistas com que teve contato ou conheceu a obra. Dentre tantos, encontrou em Balthus, pseudônimo de Balthasar Klossowski, um pintor francês de origem polaca, que, à época, não era tão conhecido como hoje, um dos principais pintores do século XX, fazendo uma análise minuciosa sobre sua obra. A mulher de Francis Picabia, Gabrielle Buffet-Picabia, apresentou a Francisco uma coleção imensa de autoria do surrealista e a ofereceu por um preço vantajoso. Entusiasmado, logo telefona para o pai, Ricardo de Almeida Brennand, falando sobre a oportunidade da compra de uma obra que seria amplamente recompensada, mas não obtém resposta...

O diário é história, crítica em alto padrão, literatura e autobiografia, num estilo que seduz o leitor para se aprofundar cada vez mais e acompanhar o artista em seus encontros e desafios, uma obra de fôlego. Ali, estão grande parte dos criadores do século passado e de todos os tempos. Quando se põe o olhar em suas páginas, a tendência é não parar e marcar o espírito do leitor, principalmente aqueles que sabem e conhecem a pintura e as suas manifestações infinitas.

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