A Gramatiquinha da fala brasileira

Raimundo Carrero *

Publicado em: 29/07/2019 03:00 Atualizado em:

Desde José Alencar a narrativa brasileira tem procurado sua linguagem própria e autônoma, até com certa vaidade exigente. Com muitos fracassos e muitas vitórias. É claro. Mais fracassos do que vitórias. Não se admite sequer o mínimo avanço. Até porque gramática é poder e a elite não abre mão disso.  O empregado não pode falar igual ao patrão. O poder começa em casa. Lima Barreto revolucionou. Mário de Andrade criou a gramatiquinha, sem regras fixas para a criação geral. Quando comecei a escrever havia duas escolas: Escrever certo – mais gramática  do qu estética –e  escrever bem – mais estética do que gramática. E havia a famosa querela entre o gramático Antenor Nascente – que reclamou de erro gramatical cometido pelo escritor Gilberto Freyre, ao que  Gilberto respondeu: - É que eu sou o piloto das letras, você é o mecânico.
Muita gente afirma que o povo não sabe falar. O povo é quem vive na calçada, na rua, no bar, no subúrbio. Esquece que somos o povo. No entanto, é comum que eruditos e cultos errem também. Percebo, com grande frequência, que todos erram, verificados os mínimos detalhes da gramática. Os articulistas de jornal, sobretudo. Até porque o jornal usa uma linguagem intermediária entre o comum e o erudito. E, em grande escala, a literatura também. Assim, falamos Português e não Brasileiro, dizem os estudiosos, embora nem tanto assim. Mesmo assim, e por tudo isso, Parece-me que somos mais brasileiros do que portugueses. As chamadas firulas gramaticais nem sempre são observadas, por eruditos, cultos, incultos, ocultos, todos. O caso do pronome  este/esse é exemplar, até porque não me parece uma regra, mas uma firula mesmo. Este – agora, neste momento aqui – e esse –passado, distanciado -, é usado conforme o escritor ou o redator. A sutileza fica por conta da leitura, só Para não rimar. E esta coisa feia – tê-lo-ia – exemplo: O acidente tê-lo-ia atingido a memória. Nunca tê-lo-ia. Personagem meu não falar, escrever ou pensar assim. Pode ser gramatical mas não é estético. Drummond se rebelava sempre.
Mário de Andrade revelou grande preocupação com o  problema. Tanto assim que chegou a escrever uma ‘Gramatiquinha da fala brasileira”, onde destaca que o ritmo e o som de uma frase são mais importantes do que a mera grámatica, muitas vezes muito distante de nossa fala brasileira. Machado de Assis optava sempre pela exceção, quando a regra lhe parecia inconveniente.
Estes e outros assuntos podem ser vistos na minha novela Colégio de Freiras – editora Iluminuras, onde deixo a narradora à vontade para praticar sua linguagem. Um caminho que acho fundamental para a narrativa contemporânea.

* Jornalista e membro da Academia Pernambucana de Letras

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