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Opinião
Os palacetes do Recife: a cidade antes de ontem

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras
opiniao.pe@diariodepernambuco.com.br

Publicado em: 25/06/2019 03:00 Atualizado em: 25/06/2019 15:55

Não sei quanto tempo foi preciso, quantas horas, dias, meses,  de pesquisas, de estudo, de leituras, de observações, de cata de documentos, de entrevistas, de lembranças incrustadas na fala de antigos recifenses, saudosos do passado, em imagens adormecidas em algum lugar da memória: certamente muitos anos, de fato uma existência inteira, o que custou a esse apaixonado pelo Recife, José Luiz Mota Menezes, a ser autor desse álbum que intitulou, modestamente Palacetes e solares do Recife, recentemente publicado sob o selo de Bureau de Cultura, com incentivos do Funcultura,  Fundarpe – Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco e Secretaria de Cultura, Governo de Pernambuco.

E não é muito proclamar, diante desse monumental trabalho nunca foi o dinheiro público tão  bem empregado, e que me per:doem os poetas que nos cantaram, e os romancistas que nos descreveram, o livro de José Luiz Mota Menezes é um grande canto de amor à cidade. Sem derramamentos líricos, sem nostalgia pelo que se perdeu diante da beleza do que resta, o arquiteto mergulhou em nossa história, reuniu fotografias antigas, plantas e projetos de construção, planos da  cidade ao longo de seu passado. E não só.

Buscou nomes de antigos construtores e proprietários, que contribuiram a valorizar a paisagem, animar os bairros, fazer do Recife um lugar onde a vida parecia mais fácil de ser vivida, e se fazia  presente, nos desenhos das construções, cercadas de árvores, jardins, com um evidente “parti-pris” pela beleza de outrora, sem temer, inclusive colocar lado a lado em uma mesma página ( v cf. página 124 e 125) o confronto entre o despojamento do edifício moderno e as residências antigas, estas lembrando uma certa doçura de viver em meio ao verde, em confronto com a rigidez das linhas e o apelo ao conforto moderno, apenas sugerido na piscina e na grama que esconde a nudez do entorno.

José Luiz se limitou por enquanto, creio, apenas a alguns bairros recifenses, que, com os processos de tombamento e a preocupação em salvaguardar o passado, conservaram lembranças de outros tempos, salvaram da destruição lugares como a Madalena, Ponte d’Uchoa, Uchoa,  Poço da Panela e Apipucos. Debruçando-se com mais vagar  no solar do Barão Rodrigues Mendes, que abriga nossa Academia Pernambucana de Letrs. E ali percorreu salas e salões, e nos revelou o mobiliário, o arranjo dos cômodos, na busca de fazer dali uma espécie de modelo de residência pernambucana como o queria Mauro Mota, quase um museu, atualmente aberta ao público de todas as idades, que percorre maravilhado esse testemunho do passado, com seu mobiliário, seu jardim que fala de um modo de ser, de viver, de senhores e sinhazinhas citadinas.

José Luiz avisa que o texto do livro não é conclusivo, havendo muito mais a se falar, se contar, se mostrar. Esse belo álbum ilustrado com desenhos, aquarelas antigas, se completa com as fotografias de um jovem artista ele também um profissional sensível e competente, apaixonado pelo Recife e por sua arte, Gustavo Maia. O Recife agradece o empenho de quem tornou possível a existência desse trabalho. E nós todos.

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