Diario de Pernambuco
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Opinião
O recuo do liberalismo no Ocidente

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 24/06/2019 03:00 Atualizado em: 23/06/2019 23:09

Diante do otimista Englightment Now, de Steven Pinker, o livro do colunista do Financial Times Edward Luce (The Retreat of Western Liberalism) serve-lhe de contraponto. Ele mostra-nos os recuos dos valores e instituições das democracias ocidentais na era da a 4ª revolução industrial da inteligência artificial. Que é marcada pela emergência de outras regiões do mundo e, ao mesmo tempo, por uma concentração que pressiona a renda das classes médias do Ocidente. Trump, Brexit e nacionalismo europeu surgem como consequência da perda da confiança no funcionamento do sistema. Emergem democracias iliberais e populismos nacionalistas, como as de Filipinas, Rússia, Turquia e Hungria. Que, junto com Trump, oferecem curas que se revelam piores que as enfermidades.

A guerra comercial entre os EUA e a China puxa para baixo a economia mundial, ampliando o desconforto dos perdedores da globalização no Ocidente. A isto soma-se a concentração de poderes dos que têm acesso às maravilhas das novas tecnologias. Bem como a dos oligopólios como os formados por Google (que já comprou o YouTube) e Facebook (que já comprou Instagram e WhatsApp). Daí o ressentimento das massas tão bem explorado pelos populistas das novas democracias iliberais e autocracias.

O que fazer? Luce primeiro busca um bom diagnóstico. Impressionam suas observações sobre as tensões entre os EUA e a China. Escaramuças sobre o Estreito de Taiwan, com ataques mútuos e a morte de mais de mil chineses e quase uma centena de americanos. Com lucidez, Luce propõe um exercício. E se Trump tomasse uma pílula mágica que lhe despertasse uma súbita inclinação para tomar decisões com base no conhecimento? Mais do que nos seus instintos arrogantes de supremacia? Aí buscaria entender as raízes históricas dos sentimentos chinesas. Buscaria uma balança de poder regional no Pacífico, em que o equilíbrio entre China, Japão e Índia poderia ser mediado pelos EUA. Deixando de utilizar a China como válvula de escape para as frustrações dos americanos médios, o ‘Trump pós-pílula’ trataria de entender as preocupações chinesas com a própria dissolução interna. Ou as aspirações chinesas para virar a página das imposições das potências ocidentais, como os navios com ogivas nucleares estacionados a apenas 12 milhas da costa chinesa, o longo domínio inglês sobre Hong Kong (até 1996), ou a questão de Taiwan. Em relação ao mundo islâmico, Luce mostra como as coisas pioraram. A visão de Trump de que o mundo judaico-cristão está em combate mortal com o Islamismo é um presente para os radicais. Assim como o nacionalismo xenófobo na Europa.

Diante desse cenário sombrio, o que fazer? Luce identifica as ansiedades dos que se voltam para Trump e outros populistas conservadores. Culturais as dos que não se identificam com as conquistas das mulheres, das minorias étnicas e da comunidade LGTBI. E econômicas as dos perdedores da globalização e da disrupção tecnológica. Ele então propõe que as democracias ocidentais mudem atitude. Ao invés de excluir esses que expressam suas ansiedades através do apelo populista conservador, trata-se de tentar entendê-los e dialogar. Para não cancelar metade da sociedade. Se a crise tem natureza política, tem-se que imaginar soluções além da puramente econômica. Volta a necessidade de um colchão básico de proteção aos mais vulneráveis. Talvez com programas universais de renda mínima e de seguridade social. Mas a educação tem que ser o foco. Para preparar as pessoas para um mundo em que as máquinas estão suprimindo os antigos empregos. Isso implica uma atenção maior à qualificação nas tecnologias e na ciência. Mas também um foco nas humanidades para superar o ‘analfabetismo político’. A educação precisa equipar as pessoas para serem membros plenos da sociedade. Contra o aumento da concentração de riquezas, Luce propõe políticas em que Wall Street contribua mais. E lembra Warren Buffet: ‘não é justo que eu pague menos impostos que minha secretária’. Tudo isso, para ele, vai depender do nosso futuro político. Hoje sombrio no Ocidente. Especialmente nos EUA, se elegerem um sucessor de Trump com as mesmas ideias supremacistas, porém menos incompetente e inculto. Suas esperanças democráticas deslocam-se para países do Oriente. Como a Índia em que ele viveu quatro anos como correspondente do Financial Times.

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