Editorial Mercosul-União Europeia: acordo histórico

Publicado em: 29/06/2019 03:00 Atualizado em: 01/07/2019 09:33

Histórico talvez seja o adjetivo mais adequado para qualificar o acordo firmado entre Mercosul e União Europeia (EU). Foram duas décadas de idas e vindas. As negociações davam dois passos para a frente, um para trás e muitos para a direita e a esquerda. Houve momentos de desânimo, em que os ouvidos pareciam surdos a argumentos deste ou daquele interessado. Também se registraram interrupções. Mas a diplomacia persistiu, novas cartas foram postas na mesa e, finalmente, chegou-se a denominador comum.

Trata-se de marco para os dois lados. É o segundo maior tratado assinado pelos europeus, atrás apenas do firmado com o Japão, e o mais ambicioso acertado pelo Mercosul. Abrange bens, serviços, investimentos e compras governamentais. A maior parte dos produtos poderá ser comercializada pelas partes com tarifa zero, segundo calendário a ser definido ao longo dos próximos anos. São 750 milhões de consumidores e PIB de US$ 17 trilhões, distribuídos nos 28 países da EU e os quatro do Mercosul — Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.

Órgãos do governo calculam que, com o pacto, o Brasil tem condições de aumentar em quase US$ 100 bilhões as exportações para o bloco do Velho Continente. Não só. Estimam que representará salto de US$ 87,5 bilhões em 15 anos do Produto Interno Bruto (PIB) podendo chegar a US$ 125 bilhões se consideradas a redução das barreiras não tarifárias e o incremento esperado na produtividade total dos fatores de produção. Também esperam que os investimentos no país tenham aumento da monta de US$ 113 bilhões e, no comércio bilateral, as exportações apresentem ganhos de US$ 100 bilhões até 2035.

São cifras auspiciosas, necessárias para injetar dose de otimismo na economia nacional, que, dia após dia, parece andar para trás. O PIB regride, a confiança se esvai, o desemprego mantém-se em patamar insustentável. Até a viagem do presidente ao Japão enfrentou estresses que não figuravam na agenda. Um deles, os 39 quilos de cocaína encontrados na bagagem de sargento da Aeronáutica em avião da Força Aérea Brasileira (FAB) que transportava equipe de apoio à comitiva de Bolsonaro para o encontro do G20 em Osaka. O militar, preso em Sevilha, responderá criminalmente às autoridades espanholas e brasileiras.

O outro refere-se às críticas à política ambiental brasileira feitas pela chanceler alemã, Angela Merkel. Ela não falou sozinha. O presidente francês exigiu a permanência do Brasil no Acordo de Paris para aderir às negociações entre EU-Mercosul. A tensão parecia caminhar para desfecho pouco diplomático. Por sorte, não foi o que ocorreu. O encontro dos dois chefes de Estado transcorreu em clima de serenidade e culminou com o convite para Macron visitar a Amazônia. Enfim, bons ventos sopram para fechar o semestre.

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