Ensino superior e pesquisa científica no Brasil (2)

Márcia Alcoforado de Moraes
Professora Associada - Departamento de Economia/ PIMES - UFPE.

Publicado em: 28/06/2019 03:00 Atualizado em:

Continuo, neste segundo artigo, a discussão levada à II Jornada de Pesquisa do CISAM, desta feita tratando da pesquisa científica brasileira. Resumi e transcrevo aqui resultados da análise disponibilizada em relatório intitulado Research in Brazil, em janeiro de 2018, à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Produzido pela companhia especializada Clarivate Analytics, o relatório usou dados da rede de pesquisa Web of Science, que conecta, de forma interdisciplinar, as mais importantes bases indexadas de várias áreas do conhecimento. Tais bases credenciam apenas revistas científicas com periodicidade assegurada, respeito a convenções editoriais internacionais, critérios de aprovação claros e definidos e conceituados revisores em sua área. Credenciadas em uma dessas bases e inseridas na rede, as revistas tornam-se mais consultadas e os artigos, nela aceitos e publicados, têm rigor científico e um selo de qualidade. A companhia usou bibliometria para analisar as publicações brasileiras que apareceram na Web of Science entre 2011 e 2016. O país surge, no período, como o 13º maior produtor de publicações (papers) nessa rede em nível mundial, tendo os nossos quantitativos crescido ano a ano. Essa maior quantidade de publicações de primeira linha está associada ao aumento, em termos reais no período, do financiamento da pesquisa no Brasil. Dos recursos aumentados na pesquisa na última década, aproximadamente 60% foram para as universidades públicas, que se expandiram e responderam com o aumento da produção observado quase em sua totalidade. Além de elevação do número de publicações de qualidade, a relevância da nossa pesquisa, medida pelo número de citações que outros artigos, publicados na mesma rede, fazem-lhe, também, aumentou no período. O impacto dos nossos artigos, historicamente abaixo da média mundial, cresceu mais de 15%, no período, nas bases indexadas. A continuar a tendência, atingiremos a média mundial em 2021. O crescimento mais impressionante, no entanto, foi na percentagem de papers brasileiros entre os 1% mais citados do mundo, que atingiu, em 2016, a média mundial, mais que dobrando sua quantidade. Nesse aspecto (impacto), tais resultados nos colocaram à frente da Rússia, Índia e México, e muito próximos à Argentina e ao Japão. Uma maior colaboração internacional dos pesquisadores brasileiros acompanhou o crescimento de relevância da nossa pesquisa e mostra grande potencial, dado que há espaço para ampliação (apenas 32% das nossas publicações têm co-autoria internacional). Com relação às áreas de pesquisa, como esperado, aquelas que vêm sendo consistentemente apoiadas com maiores aportes de recursos em P&D no Brasil (área agrícola, saúde, tecnologia industrial e mais recentemente a ciência espacial), apresentaram os maiores quantitativos de publicações e impactos na rede. No entanto, áreas emergentes como Saúde pública, Ciências Ambientais e Ecologia surgiram com bons resultados, comparáveis, tanto em qualidade como em relevância, às áreas mais aquinhoadas. Em tempos de escassez de recursos, a eficiência dessas áreas emergentes pode ser estratégica à pesquisa nacional e deve responder bem a maiores incentivos. À colaboração industrial também parece caber estímulos. Apenas 1% dos trabalhos de pesquisa brasileiros, no período, tiveram coautores da indústria. Globalmente, em geral, há aumento do impacto de citações com uma maior colaboração industrial. Esta pode, além de impactar na relevância da pesquisa, ajudar no seu financiamento, gerar patentes e aumentar a produtividade da indústria. Resultados por estado mostraram Pernambuco como o 7º estado do Brasil em quantidade de publicações de alto nível, à frente do DF, Bahia e Ceará. Atingimos a média mundial de impacto de citações em 2016, acima da nacional, e mostramos tendência de alta em todos os demais indicadores. Resultados como esses são fruto do trabalho de várias gerações e décadas de investimentos nas instituições de ensino e pesquisa, bem como do amadurecimento das agências de fomento e avaliação, e dos órgãos que planejam e implementam o sistema educacional. Um país que possui ciência é um país que conhece os seus problemas e soluções. Para proteger essas conquistas e continuar avançando, é necessário que a sociedade acredite na ciência e a veja como geradora de bem-estar e progresso. Essa visão precisa ser não apenas dos que atuam na educação, mas de cada cidadão, dos dirigentes políticos, empresariais e sindicais e das organizações da sociedade civil. 

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