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GUERRA NA UCRÂNIA

Rússia intensifica bombardeios "em todos os setores operacionais" da Ucrânia

Publicado em: 17/07/2022 09:26

Raisa Kuva, 82 anos, chora diante de prédio destruído em bombardeio à cidade de Chuguiv, a leste de Kharkiv (crédito: Sergey Bobok/AFP)
Raisa Kuva, 82 anos, chora diante de prédio destruído em bombardeio à cidade de Chuguiv, a leste de Kharkiv (crédito: Sergey Bobok/AFP)
Domina Oksana, 48 anos, é mestre em meditação. Nem por isso consegue manter a calma. "Tenho que dar conta de mim mesma e apoiar meus alunos e colegas", desabafou ao Correio. Em abril, ela fugiu de Dnipro (sudeste) e retornou com o marido à sua cidade natal, Kremenchurk, a 160km a noroeste. Ao ser questionada sobre o anúncio feito pela Rússia sobre a intensificação dos ataques no sul, no leste e no norte da Ucrânia, Oksana desabafou: "O fortalecimento dos bombardeios é a nossa morte; o que eu deveria sentir a não ser o desejo de vingança?". Ela contou que o equilíbrio mental estável não tem sido o bastante para lidar com uma guerra que, no próximo domingo, chegará ao 150º dia. "Quando os foguetes voam sobre a cidade onde você vive, quando eles destroem o local em que seu marido e seus amigos moram, quando você espera pelos filhos e as sirenes antiaéreas soam, você não sabe se chegarão bem em casa ou se serão atingidos pelo próximo foguete. Então, nem os nervos nem a compreensão serão suficientes aqui", disse.

Ontem, o Ministério da Defesa da Rússia ordenou a ampliação dos bombardeios em "todos os setores operacionais" da Ucrânia. A medida seria uma forma de conter ataques ucranianos contra posições no Donbass, região no leste do país controlada parcialmente por separatistas pró-Moscou. O presidente Volodymyr Zelensky impôs alerta antiaéreo em todo o país. Desde sexta-feira, mísseis atingiam áreas residenciais em Dnipro (centro), além de duas universidades em Mykolaiv (sul) e de casas em Chuhuiv (leste). Perto dali, em Nikopol, edifícios civis, uma escola e uma universidade foram destruídos. Ao menos duas pessoas morreram. 

"Os russos ficaram completamente loucos. Eles acham que podem alcançar seus objetivos nazistas com métodos terroristas, mas estão completamente errados", afirmou à reportagem Eugene Kramarenko, 38 anos, administrador de sistemas em Kremenchuk. Ele relatou que, ontem, ficou retido por duas horas em um bunker, enquanto as sirenes eram acionadas.

Funcionária de uma empresa de tecnologia da informação (TI), Natalia Neborak, 38 anos, fugiu de Kremenchuk, onde morava, para Lviv (oeste) ainda no primeiro dia da guerra, em 24 de fevereiro. "Nos últimos dias, temos visto alarmes antiaéreos mais frequentes por aqui. Também há mais danos em outras cidades, como Vinnitsa e Dnipro. Há um estacionamento no subsolo, sob nossa casa. Toda vez que há bombardeios corremos para lá. Nem sei se é seguro o suficiente, mas vejo como a melhor opção que temos", disse. Neborak experimenta um misto de raiva e de ansiedade. Ela afirmou não saber o que o futuro lhe reserva. "Eu não poderia imaginar que uma guerra assim ocorresse em pleno século 21 na Europa."

Olexiy Haran, professor de politica comparativa da Universidade Nacional de Kiev-Mohyla, não se surpreendeu com o anúncio de Moscou. "Esperava-se que a Rússia preparasse os primeiros bombardeios contra Donbass, um alvo considerado estratégico e oficial da guerra. Como os russos não foram bem-sucedidos nesse objetivo, agora planejam uma batalha terrestre pela região, no leste da Ucrânia", comentou. "No sul, os ucranianos têm conseguido realizar contra-ataques, perto da cidade de Kherson. Acho que o mais perigoso para os civis é o fato de que os russos se comportam como terroristas. Eles começaram a bombardear alvos civis em cidades e dispararam contra duas universidades, em Mykolaiv", acrescentou. Para Haran, a ideia de Moscou é intimar o povo ucraniano. "Os armamentos entregues pelo Ocidente se mostram bem eficientes, como os sistemas de foguete de alta mobilidade. Mas precisamos de mais armas e do fortalecimento de sanções contra o Kremln", concluiu. 

Por sua vez, Anton Suslov — analista da Escola de Análise Política (naUKMA), em Kiev — aposta que o anúncio da intensificação da guerra é mais um truque voltado para o Ocidente do que um plano real. "Nós sabemos que alguns países, como a Alemanha, foram relutantes em aplicar sanções e em fornecer armas ao governo de Zelensky, com medo de provocar a Rússia. A suposta escalada do conflito é voltada para essas nações e para a opinião pública russa", admitiu ao Correio. Segundo Suslov, a Ucrânia necessita de maior determinação por parte de aliados internacionais. "Nós precisamos de caças para a defesa aérea e de lança-foguetes para destruir os depósitos de armas da Rússia em territórios ocupados. Isso ajudará a salvar vidas inocentes."

Central nuclear
A operadora responsável pela energia nuclear na Ucrânia denunciou que tropas russas implantaram lança-mísseis na central atômica de Zaporizhzhia para disparar contra as regiões de Nikopol e Dnipro. "Os ocupantes russos instalaram sistemas de lançamento de mísseis no território da central  nuclear de Zaporizhzhia, no sul da Ucrânia", disse o presidente da Energoatom, Petro Kotin, no aplicativo de mensagens Telegram. "A situação (na usina nuclear) é extremamente tensa, e a tensão aumenta a cada dia. Os ocupantes estão trazendo seu maquinário, incluindo sistemas de mísseis, com os quais atacaram o outro lado do Rio Dnipro e o território Nikopol, 80km a sudoeste de Zaporizhzhia." Ao menos 500 soldados russos estão acampados na usina atômica. 
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