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Presidente do Cazaquistão anuncia retirada de tropas russas e critica antecessor

Por: AFP

Publicado em: 11/01/2022 08:56

 (Foto: VYACHESLAV OSELEDKO / AFP
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Foto: VYACHESLAV OSELEDKO / AFP
O presidente do Cazaquistão, Kassym Jomart Tokayev, anunciou nesta terça-feira (11) que o contingente de forças liderado pela Rússia começará a deixar o país em dois dias e criticou fortemente seu predecessor, no que parece ser uma tentativa de reforçar sua autoridade.

Dirigindo-se ao governo e ao Parlamento em uma videoconferência, o presidente de 68 anos acusou Nursultan Nazarbayev, seu poderoso mentor, de ter fomentado o surgimento de uma "casta rica, mesmo para os padrões internacionais", que domina o país e seus abundantes recursos de hidrocarbonetos.

Trata-se de uma crítica sem precedentes ao "pai da nação", cuja personalidade é reverenciada neste tumultuado país da Ásia Central.

"Acho que chegou a hora de prestar homenagem ao povo do Cazaquistão e apoiá-lo de maneira sistemática e regular", disse Tokayev, acrescentando que "empresas muito lucrativas" deverão contribuir com dinheiro para um fundo estatal.

No mesmo discurso, prometeu realizar reformas, conter a inflação e aumentar os salários, no momento em que esta ex-república soviética rica em hidrocarbonetos sofre a pior crise de sua história recente.

Os distúrbios da semana passada começaram com um protesto pacífico contra o aumento do preço da energia no oeste do país e terminaram com dezenas de mortos e cerca de 10.000 presos.

Cazaquistão e Rússia denunciaram uma tentativa de golpe de Estado com a ajuda de "terroristas" estrangeiros, mas forneceram poucas evidências que apoiassem esse argumento.

A pedido de Tokayev, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO, na sigla em inglês), liderada por Moscou, enviou tropas para restabelecer a ordem e reforçar as autoridades.

Nesta terça, Tokayev anunciou que "uma retirada gradual" começará em dois dias e vai durar "não mais que dez".

"A missão principal das forças de paz da CSTO foi concluída com sucesso", assegurou.

Formado por mais de 2.000 soldados, esse contingente foi enviado no auge da crise, na semana passada, após confrontos armados entre opositores do governo e as forças de segurança e uma onda de saques que deixou a maior cidade do país, Almaty, irreconhecível.

A decisão de enviar tropas foi uma novidade para a CSTO. Apresentada por Moscou como um equivalente da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), esta instituição era, até agora, relutante em interferir nos distúrbios da Ásia Central. 

Na semana passada, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, chegou a alertar que, "uma vez que os russos entram em sua casa, às vezes é muito difícil fazê-los sair".

"Guerra terrorista"
 
O ex-presidente Nursultan Nazarbayev, de 81 anos, ainda não apareceu em público desde o início da crise atual. Um conhecido disse que ele estava na capital, Nursultan, e dialoga com Tokayev.

As filhas, genros e netos de Nazarbayev controlam cargos e setores econômicos muito importantes. 

O ex-chefe do comitê de segurança nacional Karim Masimov, um importante aliado de Nazarbayev, por meio de quem sua influência se perpetuou, foi preso no sábado (8).

Tokayev parece ter fortalecido ainda mais sua própria posição, apoiando o primeiro-ministro interino, Alchan Smailov, a assumir o cargo permanentemente. A nomeação obteve apoio unânime dos legisladores nesta terça-feira.

Tokayev também culpou o comitê antes controlado por Masimov de abandonar as cidades do Cazaquistão durante a crise.

"Apesar de ter um arsenal militar suficiente, sem entrar em combate, abandonaram os prédios, deixando para trás armas e documentos secretos", relatou Tokayev, prometendo reformar as estruturas de segurança para que a "defesa dos cidadãos" seja sua prioridade máxima.

"Uma guerra terrorista foi desencadeada contra nosso país", disse Tokayev. "Poderíamos ter perdido o país", completou. 

Muitos moradores de Almaty receberam as tropas russas com alívio.

"Saúdo a cooperação com a Rússia. Acredito que não há uma ameaça à nossa soberania", afirmou a professora de inglês Roza Matayeva, de 45 anos.
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