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Milhares de manifestantes protestam contra golpe de Estado em Mianmar

Por: AFP

Publicado em: 07/02/2021 12:55

 (Foto: STR/AFP)
Foto: STR/AFP
Dezenas de milhares de birmaneses protestaram neste domingo em todo o país contra o golpe de Estado que derrubou o governo de Aung San Suu Kyi, nas maiores manifestações no país desde a revolta de 2007. Em Yangon, os manifestantes, quase 100 mil de acordo com várias estimativas, se reuniram perto da prefeitura da capital econômica do país, onde um grande dispositivo policial foi mobilizado.

Em várias cidades do país também foram organizados protestos, com muitos participantes, de acordo com os correspondentes da AFP. Em Naypyidaw, a capital, 350 km ao norte de Yangon, centenas de pessoas desfilaram em motos pelas grandes avenidas da cidade, construída pela junta militar, e onde normalmente não há muito movimento. "Respeitem nosso voto. Abaixo a ditadura", gritavam os manifestantes em Kawthaung, a maior cidade do sul, enquanto faziam a saudação com três dedos, um gesto de resistência.

Estas são as maiores manifestações desde a "Revolução Açafrão" de 2007, violentamente reprimida e que terminou com dezenas de mortos. "Não queremos a ditadura. Queremos a democracia", gritaram os manifestantes nas ruas de Yangon, antes da dispersão pacífica durante a noite. Alguns manifestantes entregaram rosas aos policiais, outros exibiram cartazes com frases como "Libertem a mãe Suu", em referência a Aung San Suu Kyi. Também foram exibidas bandeiras do partido de Suu Kyi, a Liga Nacional para a Democracia (LND).

"Até o fim" 

"Não tenho medo da repressão" e "vamos lutar até o fim", gritaram os estudantes. Não foram registrados incidentes. "Defendemos o direito de manifestação do povo birmanês para apoiar o governo eleito democraticamente e seu direito de acesso livre à informação", tuitou o embaixador americano no país, Thomas Vajda. No domingo à tarde, o acesso à internet foi parcialmente restabelecido, após um bloqueio de vários dias, de acordo com a ONG Netblocks.

Os protestos foram transmitidos ao vivo no Facebook e receberam apoio de pessoas em vários países. "Vocês são heróis", "Respeito aos manifestantes", afirmavam mensagens enviadas de Singapura, Japão ou Estados Unidos. No sábado, milhares de pessoas se reuniram em várias cidades do país para condenar o golpe de Estado de 1 de fevereiro, que acabou com 10 anos de frágil democracia.

Os militares decretaram estado de emergência por um ano. Aung San Suu Kyi, líder de fato do governo civil, e outros dirigentes da LND foram detidos. Os generais não fizeram comentários sobre os protestos. Poucas horas depois do golpe de Estado, as redes sociais registraram publicações de pedidos de "desobediência civil", apoiados por advogados, médicos e funcionários públicos.

Para calar as vozes dissidentes, o exército ordenou aos provedores de internet que bloqueassem o acesso ao Facebook, rede social utilizada por milhares de birmaneses, Twitter e Instagram. Ao mesmo tempo, as detenções continuam no país. Mais de 160 pessoas foram detidas, segundo a Associação de Assistência aos Presos Políticos, que tem sede em Yangon.

Suu Kyi em prisão domiciliar 

Aung San Suu Kyi, de 75 anos, muito criticada recentemente pela comunidade internacional por sua passividade na crise dos rohingyas, continua sendo uma figura venerada no país. Os militares a acusam de infringir uma lei comercial e ela está em prisão domiciliar na capital, "em boa saúde", de acordo com uma fonte da LND. As autoridades "devem garantir o respeito completo do direito de reunião pacífica e que os manifestantes não sejam submetidos a represálias", tuitou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

A ONU pediu a libertação de todos os detidos, mas não condenou formalmente o golpe de Estado em sua declaração conjunta, pois China e Rússia, apoios tradicionais do exército birmanês nas Nações Unidas, se opõem à medida. Estados Unidos e União Europeia ameaçaram adotar sanções contra Mianmar. O papa Francisco expressou neste domingo "solidariedade com o povo birmanês" e pediu ao exército que trabalhe a favor de uma "coexistência democrática".

Para justificar o golpe de Estado, o comandante do exército, Min Aung Hlaing, que concentra na prática todos os poderes, alegou "enormes fraudes" nas eleições legislativas de novembro, vencidas por ampla maioria pela LND. Na realidade, os generais temem a perda de influência após a vitória da Aung San Suu Kyi, que teria se mostrado favorável a modificar a Constituição, muito favorável aos militares. A junta militar prometeu organizar eleições livres após o estado de emergência.
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