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Pesquisadores alertam que metade da biosfera não vai conseguir armazenar CO2

Publicado em: 14/01/2021 07:38

 (Foto: AFP / GUILLERMO LEGARIA)
Foto: AFP / GUILLERMO LEGARIA
A capacidade de as plantas absorverem dióxido de carbono está chegando ao fim, segundo um estudo publicado na revista Science Advances. Ao examinar dados sobre taxa de fotossíntese referentes a mais de duas décadas e os relacionarem com as medições de temperatura, pesquisadores norte-americanos e neozelandeses calculam que, entre 20 e 30 anos, não será mais possível armazenar CO2 em diversos biomas, incluindo a Floresta Amazônica. De estocadoras, as florestas passarão a lançar o gás na atmosfera.

Graças à biosfera — a atividade das plantas e dos micróbios do solo —, quase um terço das emissões de CO2 causadas por atividades humanas é absorvida. Os ecossistemas sequestram o dióxido de carbono, importante para o crescimento das espécies vegetais, por meio da fotossíntese. À noite, “respiram”, lançando de volta para a atmosfera parte desse gás. Nas últimas décadas, mais carbono foi absorvido do que liberado, o que ajuda a mitigar o efeito estufa. Porém, devido ao aumento das temperaturas globais, a Terra está próxima ao ponto de mudança, argumenta o artigo.

Para descobrir quando as temperaturas atingirão esse limite, a equipe liderada por Katharyn Duffy, da Universidade do Nordeste do Arizona, analisou registros de 1991 a 2015 da rede global Fluxnet, responsável por monitorar o movimento de dióxido de carbono entre os ecossistemas e a atmosfera. Trata-se de centenas de torres de medição instaladas em biomas de todo o mundo, sendo uma dezena delas na Amazônia Brasileira.

Os pesquisadores calcularam alterações no processo de fotossíntese e na respiração da biosfera atribuídas apenas às mudanças na temperatura em cada local da torre de fluxo e, então, agregaram essas informações no bioma e em níveis globais. Os dados sugerem que, com a tendência atual de aquecimento, até metade dos ecossistemas terrestres pode atingir o ponto crítico em 2100, em um cenário de emissões usual.

Limites distintos
Atualmente, menos de 10% da biosfera terrestre está sujeita a temperaturas além desse máximo fotossintético. Mas, na taxa atual de emissões, até metade de plantas e micróbios do solo pode estar exposta a temperaturas que ultrapassam esse limite de produtividade em meados do século — e alguns dos biomas mais ricos em carbono do mundo, incluindo florestas tropicais na Amazônia e no sudeste da Ásia e a taiga na Rússia e no Canadá, serão um dos primeiros a atingir esse ponto de inflexão.

“Sabemos que a temperatura ótima para os humanos está em torno de 37ºC, mas nós, na comunidade científica, não sabíamos quais eram essas temperaturas para a biosfera terrestre”, diz Duffy. Esses picos são 18°C para plantas C3 (sazonais frias) e 28ºC para as C4 (sazonais quentes), que têm diferentes vias metabólicas de fotossíntese — e eles já estão sendo excedidos. Isso significa que, em muitos biomas, o aquecimento contínuo fará com que a fotossíntese diminua, enquanto as taxas de respiração aumentam exponencialmente, alterando o equilíbrio dos ecossistemas de sumidouro de carbono para fonte de carbono e acelerando as mudanças climáticas. Diferentes tipos de plantas variam nos detalhes de suas respostas à temperatura, mas todas mostram declínios na fotossíntese quando fica muito quente”, explica o coautor George Koch.

“A coisa mais surpreendente que nossa análise mostrou é que a temperatura ótima para a fotossíntese em todos os ecossistemas era muito baixa”, afirma, em nota, Vic Arcus, biólogo da Universidade de Waikato, na Nova Zelândia, e coautor do estudo. “Combinado com o aumento da taxa de respiração do ecossistema ao longo das temperaturas que observamos, nossos resultados sugerem que qualquer aumento de temperatura acima de 18ºC é potencialmente prejudicial para o sumidouro de carbono terrestre. Sem reduzir o aquecimento para permanecer nos níveis estabelecidos pelo Acordo de Paris, o estoque de carbono da Terra não vai continuar a compensar nossas emissões e nos fazer ganhar tempo.” Assinado em 2015, o acordo estabeleceu a meta de manter o aumento da temperatura global abaixo de 2 °C acima dos níveis pré-industriais até o fim do século.

Temperatura recorde nos oceanos
As temperaturas dos oceanos quebraram recordes em 2020. Um estudo de autoria de 20 cientistas de 13 institutos ao redor do mundo relatou as mais altas temperaturas oceânicas, do nível da superfície até uma profundidade de 2 mil metros, desde 1955. O artigo foi publicado, ontem, na revista Advances in Atmospheric Sciences e faz um apelo aos legisladores e formuladores de políticas públicas para que considerem os danos duradouros que os oceanos mais quentes podem causar.

“Mais de 90% do excesso de calor devido ao aquecimento global são absorvidos pelos oceanos. Então, o aquecimento dos oceanos é um indicador direto do aquecimento global”, diz Lijing Cheng, autor principal do artigo e professor-associado do Centro Internacional de Ciências Climáticas e Ambientais do Instituto de Física Atmosférica (IAP) da Academia Chinesa de Ciências (CAS). “No entanto, devido à resposta retardada do oceano ao aquecimento global, as tendências de mudança persistirão pelo menos por várias décadas. Então, as sociedades precisam adaptar-se às consequências agora inevitáveis de nosso aquecimento inabalável. Mas ainda há tempo para agir e reduzir nossas emissões de gases de efeito estufa.”

Usando um método desenvolvido no IAP/CAS, os pesquisadores calcularam as temperaturas do oceano e a salinidade até 2 mil metros usando informações tiradas de todas as observações disponíveis que constam do Banco de Dados Mundial dos Oceanos. Eles descobriram que, em 2020, os 2 mil metros superiores dos oceanos absorveram 20 zettajoules a mais do que em 2019. Essa quantidade de calor poderia ferver 1,3 bilhão de chaleiras, cada uma contendo 1,5 litro de água. “Por que o oceano não está fervendo? Porque é vasto. Podemos imaginar quanta energia o oceano pode absorver e conter e, quando é liberada lentamente, quão grande é o impacto”, detalha Cheng.

Os pesquisadores relataram outros efeitos, como a amplificação do padrão de salinidade do oceano, e maior estratificação devido ao aquecimento da camada superficial. Ambas as mudanças podem causar danos aos ecossistemas marinhos. “O fresco fica mais fresco, o salgado fica mais salgado”, diz Cheng. “O oceano absorve uma grande quantidade de calor do aquecimento global, mitigando os efeitos do fenômeno. No entanto, as mudanças oceânicas associadas também representam um grave risco para os sistemas humanos e naturais.”
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