Polêmica França diz que Bolsonaro mentiu sobre ambiente e ameaça barrar UE-Mercosul

Por: FolhaPress - FolhaPress

Publicado em: 23/08/2019 22:15 Atualizado em:

Foto: Alan Santos/PR (Foto: Alan Santos/PR)
Foto: Alan Santos/PR
O governo da França disse nesta sexta-feira (23) que o presidente Jair Bolsonaro mentiu ao assumir compromissos em defesa do ambiente na cúpula do G20 (grupo das economias mais desenvolvidas), em junho, e que isso inviabiliza a ratificação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, concluído no mesmo mês.

Firmado após 20 anos de negociações, o termo de cooperação comercial entre a UE e o Mercosul prevê eliminar, em 15 anos, mais de 90% das tarifas praticadas hoje nas transações de mercadorias entre os dois blocos.

A Irlanda também afirmou que vai bloquear a implantação do pacto caso o Brasil não atue para combater os incêndios em curso na Amazônia.

"Não há nenhuma chance de votarmos a favor se o Brasil não honrar seus compromissos ambientais", escreveu o primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar, em comunicado divulgado na noite de quinta (22).

A França foi mais incisiva a respeito do presidente brasileiro: "Dada a atitude do Brasil nas últimas semanas, o presidente da República [Emmanuel Macron] só pode constatar que o presidente Bolsonaro mentiu para ele na cúpula [do G20] de Osaka", declarou o Palácio do Eliseu.

A França disse ainda que Bolsonaro decidiu não respeitar seus compromissos climáticos nem se comprometer com a biodiversidade.

"Nessas circunstâncias, a França se opõe ao acordo do Mercosul", acrescentou a Presidência francesa.

Em resposta, Bolsonaro disse que Macron tenta potencializar o ódio contra o Brasil, lembrando que ele divulgou na quinta imagem de incêndio na floresta amazônica que, na verdade, foi feita por um fotógrafo que morreu em 2003.

"Lamento a posição de um chefe de Estado, como o da França, se dirigir ao presidente brasileiro como mentiroso. Não somos nós que divulgamos fotos do século passado para potencializar o ódio contra o Brasil por mera vaidade. Nosso país, verde e amarelo, mora no coração de todo o mundo."

Na Finlândia, o ministro da Economia, Mika Lintila, sugeriu que a UE considerasse urgentemente a possibilidade de banir importações de carne bovina do Brasil.

O primeiro-ministro da Finlândia, Antti Rinne, foi mais evasivo: "Temos de descobrir se os europeus têm algo a oferecer ao Brasil para ajudar a prevenir outros incêndios assim".

O governo do Reino Unido declarou-se nesta sexta (23) "profundamente preocupado" com o aumento das queimadas e com o "impacto da perda trágica desses habitats preciosos", nas palavras de uma porta-voz.

Além da resistência de produtores agrícolas (sobretudo na França e na Irlanda), a parceria foi alvo de críticas de ambientalistas, que ressaltavam a fragilização dos organismos de monitoramento e combate ao desmatamento sob o governo Jair Bolsonaro.

Horas após a assinatura do pacto, o presidente francês, Emmanuel Macron, disse que obtivera do Brasil a garantia de que o país não deixaria o Acordo de Paris sobre a mudança climática (2015), que fixa metas para reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa.

No comunicado de quinta (22), o premiê da Irlanda, Leo Varadkar, declarou-se "muito preocupado" com a disparada das notificações de queimada na Amazônia (84% a mais de janeiro a 21 de agosto do que no mesmo período de 2018).

"Os esforços do presidente para culpar ONGs de defesa do ambiente pelo fogo são orwellianos", afirmou o primeiro-ministro, aludindo ao escritor inglês George Orwell (1903-50) e à sua denúncia insistente de totalitarismos.

"A declaração dele [Bolsonaro] de que o Brasil permanecerá no acordo do clima 'por enquanto' deixa a Europa de antena ligada."

O pacto Mercosul-UE ainda precisa passar pelo crivo dos chefes de Estado e governo europeus, antes de ser submetido ao Legislativo de cada integrante do bloco e ao Parlamento Europeu. O processo deve levar ao menos mais dois anos.

"Ao longo desse período, vamos monitorar de perto as ações ambientais do Brasil", sinalizou Varadkar.

"Não se pode pedir a fazendeiros irlandeses e europeus para usar menos pesticidas e fertilizantes [...] se não fecharmos acordos comerciais sujeitos a parâmetros decentes nos quesitos ambiental, trabalhista e de normas de produção."


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