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LITERATURA

'Yes, nós temos Coca-Cola' investiga processo de americanização do Recife

Publicado em: 12/05/2022 19:27

Livro de Frederico Toscano investiga entrada de hábitos gastrônomicos dos EUA no Recife (CEPE/DIVULGAÇÃO)
Livro de Frederico Toscano investiga entrada de hábitos gastrônomicos dos EUA no Recife (CEPE/DIVULGAÇÃO)
Se hoje não é incomum ver garrafas de uísques e Coca-Cola nas festas e dia-a-dia do brasileiro e, sobretudo, de pernambucano, nem sempre foi assim. Na realidade, esses e outras bebidas e alimentos que hoje integram nosso cotidiano entrou na nossa rotina de hábitos a partir de um processo de americanização, que se inicia com o avanço da indústria cultural estadunidense ainda nos anos 1920 e se acelera fortemente no Recife durante a Segunda Guerra Mundial, com a instalação da Quarta Frota dos Estados Unidos na capital pernambucana, que se tornou um dos principais pontos estratégicos do combate no Atlântico Sul.

A história desse contato físico e cultural da cidade com os EUA e suas forças armadas é destrinchada, sobretudo  do ponto de vista gastronômico, pelo historiador Frederico Toscano em Yes, Nós Temos Coca-Cola: A fartura dos EUA e a guerra contra a fome no Nordeste, lançado pela Companhia Editora de Pernambuco nesta quinta-feira (12). Toscano investiga o período entre 1930, com a chegada de Vargas no poder, e 1964, ano do golpe militar, tendo como pilares a abundância que permeia a cultura alimentícia americana e a fome e escassez vivida no país e no Nordeste, colocando esses dois regimes em tensionamento. 

O livro é um desdobramento da pesquisa de doutorado de Toscano, realizado na USP, que também já estudou e publicou sobre a influência francesa na culinária local. Mas, já se aproximando da segunda metade do século 20, há uma virada de chave no sentido da americanização, pesquisada por ele a partir de um mergulho em diversas fontes que vão do Arquivo Público de Pernambuco e de jornais, como o Diario, até pesquisas de campo nos Estado Unidos, em documentos de instituições como o National Archive. 

“A pesquisa em fontes primárias sobre alimentação têm uma certa dificuldade porque ela sempre foi tratada como uma coisa secundária, do cotidiando, que bebemos e comemos apenas para sobreviver. Então para encontrar essas fontes primárias, entre relatórios de suprimentos e transporte, tive que cascavilhar muito. Acabei encontrando muita coisa no National Archive, em Maryland, inclusive sobre a visão dos americanos sobre os brasileiros, que era, para eles, um país exótico e muito novo. Eles se espantavam, por exemplo, com a quantidade de pessoas negras nas ruas, também conheceram nossas questões de segurança, o carnaval e buscavam entender o Brasil a partir daí”, relata Frederico, em entrevista ao Viver. 

Ao lado do Rio Grande do Norte, em especial o pequeno município de Parnamirim, Recife sofreu um processo de catalisação da colonização cultural norte-americana com a chegada dos militares durante a Segunda Guerra. Além das tropas, a cidade recebeu também repórteres norte-americanos e instituições como a United Services Organizitions (USO), criada durante a guerra para promover eventos culturais da terra natal dos combatentes. Tal presença deixou marcas na vida cultural da cidade que vai dos bares aos petiscos, consolidando um avanço que o cinema, as revistas e a música já tinha iniciado alguns anos antes.

“Por mais que houvesse um esforço de Vargas em unificar a cultura brasileira, os Estados Unidos já tinha uma indústria cultural muito solidificada e todo país busca projetar sua cultura no mundo como forma de poder no teatro mundial da geopolítica. E quem tem mais grana, faz isso melhor. E eles fazem isso sem fazer esforço, vendendo mesmo seus produtos, ganhando dinheiro com isso. Com a Segunda Guerra, isso vira uma questão de estado, para aproximar a América Latina de si e evitar a aproximação com nazistas. E não houve uma troca, os brasileiros consumiram a cultura americana e eles não consumiram a nossa”, elabora 

A partir dessa incursão, o pesquisador se detém sobre o contraste entre a fartura que é típica do ideário culinário norte-americano com a fome que assola o Brasil há séculos. Seu livro chega em um momento que a insegurança alimentar atinge cerca de 19,1 milhões de brasileiros, de acordo com dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Insegurança Alimentar. A fome no país, que retorna após um período de combate mais intensivo contra ela na última década, é uma problemática sobre a qual Toscano se debruça, sobretudo sob forte influência de um pernambucano que é uma das maiores referências mundiais sobre o assunto: Josué de Castro.

“Estamos novamente no Mapa da Fome, por conta de decisões políticas tomadas pelo governo atual. Tínhamos sido retirados dele durante os governos do PT, mas agora vemos a inflação galopante, os alimentos mais caros, o agronegócio destruindo a agricultura familiar, que é quem de fato bota comida na mesa do brasileiro, porque a agroindústria cultiva commodity para o mercado externo. A ideia de fome sempre foi muito naturalizada no Brasil, era algo como a seca, que vem e não se pode fazer nada. Até que surgiu um pernambucano, médico, escritor, cientista social e geógrafo que falou que isso não é normal as pessoas passarem fome e que ela só vai acabar com investimento do estado em seu combate. Isso pode parecer óbvio hoje, mas foi revolucionário o que Josué de Castro fez. Minhas ideias de abundância e escassez vêm dele. E ele merece mais reconhecimento no estado”, conclui

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