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'Fiz tudo pensando no público de Nazaré da Mata', diz Tiago Melo, diretor de Azougue Nazaré

Publicado em: 19/11/2019 13:54 | Atualizado em: 19/11/2019 13:59

 (Foto: Leo Sette/Divulgação)
Foto: Leo Sette/Divulgação
O pernambucano Tiago Melo tem uma carreira atuante no cinema brasileiro há 15 anos. Foi produtor associado de longas-metragens como Bacurau, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2019, e Boi neon, premiado nos festivais de Veneza, Toronto e Hamburgo. Também trabalhou como diretor de produção de Divino amor (Sundance e Berlim) e Aquarius. Como diretor e roteirista, assinou o premiado curta-metragem Urânio Picuí, de 2012. Mas apenas agora lançou seu primeiro longa. Azougue Nazaré foi inteiramente filmado em Nazaré da Mata, na Mata Norte de Pernambuco, e circulou por mais de 40 festivais, a maioria deles internacionais. 

O filme também venceu dez prêmios, com destaque para a categoria de Melhor Filme na competição Bright Future Award, do Festival Internacional de Rotterdam, da Holanda, em 2018, e Menção Honrosa no Festival Independente de Lima, no Peru, no mesmo ano. A estreia no circuito nacional foi na última quinta-feira (14). Em entrevista ao Viver, o diretor conversou sobre o processo de idealização de seu primeiro longa, a experiência da realização das filmagens e algumas temáticas queo longa-metragem aborda.

ENTREVISTA - TIAGO MELO, DIRETOR, ROTEIRISTA E PRODUTOR

Como surgiu a ideia para Azougue?
Eu sempre tive vontade de fazer um filme em Nazaré da Mata. Já tinha feito um curta no Sertão da Paraíba, terra do meu pai. Então queria Nazaré, por ser a terra da minha mãe e para ser um filme sobre maracatu. Sempre fui encantado por maracatu, é uma das coisas mais bonitas que já vi na vida. Fui para Nazaré, comecei a pesquisar e coincidentemente o destino me levou ao Camina Brasileira, o grupo de maracatu mais antigo em atividade. Ele tem 102 anos, a mesma idade da minha avó materna. Os dois nasceram em Nazaré no mesmo ano, então foi bom ir para lá, criar laços, criar raízes de novo. Criei relações muito fortes com as pessoas do maracatu. São relações para a vida inteira.

Acha que o fato de você não ter usado atores profissionais criou um diferencial no filme?
É uma pergunta que sempre aparece quando exibimos em festivais. Uma das primeiras perguntas. Mas a postura que essas pessoas tiveram para fazer o filme foi de muito profissionalismo. Então, eu posso dizer que eles são iniciantes. Depois que o filme “aconteceu”, eles começaram a fazer vários outros longas. O Valmir do Coco, por exemplo, já está em seu quinto longa-metragem, incluindo uma ponta em Bacurau. A Mohana Uchôa também já gravou Justiça, série da Globo. Todo mundo estava sendo iniciante, enquanto eu estava começando enquanto diretor também. Acho isso muito interessante.

Como foi a experiência de exibir Azougue em tantos festivais internacionais?
A gente estreou o filme no ano passado em Rotterdam e passamos por um circuito realmente muito grande de festivais internacionais. Isso foi muito importante para o filme e para a minha carreira. Agora estamos conseguindo chegar no circuito comercial. Foi uma batalha muito grande para a gente conseguir um lugar bom de estreia, lançando o filme em 25 salas do Brasil. Esse foi um trabalho da Inquieta, uma distribuidora de Pernambuco. Acho massa conseguir isso com um filme muito pequeno, de baixo orçamento.

Os caboclos de lança, assim como os canaviais de Nazaré, carregam certo mistério. Como você tentou explorar essa potencialidade da região?
O filme tem mixing de gêneros. Ele tem uma coisa do sobrenatural, de suspense, com os caboclos. Mas também tem uma pegada muito musical e de humor. O próprio maracatu acabou trazendo para mim esses três gêneros. A parte sobrenatural vem de histórias reais. Existem vários relatos de que, depois de tomar a bebida do azougue, os caboclos ganhavam poderes, como sumir e aparecer em outro lugar. Existem vários elementos fortes que vêm dessas histórias populares do passado que envolvem o universo do maracatu. Até hoje não temos uma resposta sobre o que é o sobrenatural mesmo.

O filme também desmistifica as pessoas que constroem o maracatu.
Sim. Quando o filme passou fora do Brasil, as pessoas que nunca ouviram falar do maracatu tiveram uma reação impactante. É muito bom ver isso. Nós, pernambucanos, conhecemos bem essa manifestação, porém sinto de nossa parte um certo preconceito social com a cultura popular. Existe um menosprezo na hora de pagar cachê, ou colocar para se apresentar em determinados espaços. Basta olhar para os municípios do interior. O maracatu é inferior a uma banda de forró ou de brega, que são pagas primeiro nos eventos? No filme, não coloquei a cultura popular em um pedestal, também não quis romantizar. Coloco eles como pessoas fortes, porém comuns. Acho que no contexto da cultura do Brasil hoje, o país inteiro precisa que olhar bem para as bases e para o popular. E só assim poderemos sobreviver.

A presença do Mestre Anderson Miguel, que é de uma nova geração do maracatu, também trabalha em cima dessa ideia de desmistificação?
O maracatu é uma arte de pura evolução. Antes, as roupas não tinham colorido. E podemos ver essas mudanças justamente com a entrada de uma nova geração. As gerações novas vão entrando e ficando, nunca acaba. Isso está no filme também. Pegamos o Mestre Anderson, que tinha 18 anos na época. Essa coisa pop, como existe a batalha do passinho, existe também com o maracatu. Não é algo de velhos, de pessoas antigas. As pessoas jovens estão fazendo com tecnologia, com tudo.

O filme também aborda a expansão das igrejas neopentecostais e a intolerância religiosa. Como tratar disso hoje?
Eu também sempre quis fazer um filme que abordasse a intolerância religiosa. Coloco o Mestre Barachinha, que é um ícone do maracatu, como um ex-mestre e pastor evangélico que tem a missão de tirar todo mundo do maracatu. Eu sempre pensei como isso ia ser polêmico em Nazaré da Mata. Eu fiz tudo pensando primeiro no público de Nazaré. As coisas agora estão muito declaradas hoje em dia com essa crescente do ódio. Ao abordar esse tema, também quis mostrar a intolerância que evangélicos sofrem. Existem algumas igrejas e pastores que parecem estar alinhados em um plano radical de poder, mas não são todos. Em Nazaré, existe evangélico que adora o maracatu. O bom do filme é abrir diálogo.

Assista ao trailer de Azougue Nazaré:

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