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Pernambucano Alcides Burn celebra 20 anos como importante artista visual do heavy metal

Publicado em: 19/10/2019 14:15 | Atualizado em: 19/10/2019 15:42

Trabalho como capista contribuiu para o artista ganhar notoriedade entre os fãs do metal, chegando ao lugar de prestígio como curador do festival Abril Pro Rock. Foto:Marco Antonio
 
A subversão de símbolos sacros, as guerras e a força brutal de deuses nórdicos: desde os anos 1970, a cultura visual que permeia o heavy metal é facilmente reconhecida e habita o repertório imagético da cultura pop mundial. São inúmeras as capas de álbuns icônicos, como o Master of puppets do Metallica (1986); o Reign in blood (1986) do Slayer; Powerslave (1984) do Iron Maiden ou o disco homônimo do Black Sabbath de 1970, que para muitos inaugura o gênero. No Recife, o capista Alcides Burn, que neste ano completa 20 anos no ramo, apresenta um currículo de peso, com produções para bandas nacionais e internacionais. O trabalho como capista contribuiu para o artista ganhar notoriedade entre os fãs do metal, chegando ao lugar de prestígio como curador do festival Abril Pro Rock, mas também na divulgação de bandas, construção de narrativas visuais para o gênero e no fortalecimento de uma cultura de fãs forte, aspecto central do metal.

A partir da paixão de sua mãe, Alcides ainda jovem se tornou aficionado por música e filmes. Com a escuta atenciosa às trilhas sonoras dos filmes e, na adolescência, com amigos que trocavam fitas cassetes com recomendações de música pesada, o artista foi formulando seu repertório e seus afetos em relação ao universo da música pesada. Autodidata, Alcides conta em entrevista ao Viver, que sua carreira começou ainda nos anos 1990, quando ganhou um computador de presente do tio. “Sempre curti desenhar muito. Muitos amigos meus tinham banda na época e eu fazia desenho para capa de EP ou demo. Nos anos 1990 meu tio me deu um computador. Aí começou de fato minha carreira de artista gráfico, porque estudei muito os programas ao ponto de me viciar em photoshop (risos)”, explica.
 
O artista já produziu diversos trabalhos para bandas nacionais e internacionais. Foto:Divulgação
 
Daí por diante, foi aprimorando sua técnica até criar assinatura própria, que são capas montadas a partir de colagens feitas com manipulação de imagens, que geralmente vêm de bancos de imagens gratuitos, com diversas texturizações e elementos visuais violentos, típicos do repertório visual do heavy metal. Entre capas, logos e posters, o artista recifense assina a arte de bandas que fazem parte de um circuito underground do metal como Krisiun, Funeratus, Keep of Kalessin (NOR), Blood Red Throne (NOR), Acheron (EUA), Beneath the Flesh (EUA), Iconoclasm (BEL) Nervochaos e Neuroticos (JAP).
 
Com um Jesus Cristo barroco de Aleijadinho e uma capa com diagramação simples,  Alcides mostra com orgulho o CD de The last prayer (2000), da banda Decomposed Gods. Se trata de seu primeiro trabalho, com muito menos elementos que os feitos hoje em dia, mas que transmitem o peso denso e atmosféricos que o gênero evoca. Hoje, as capas do artista são extremamente exuberantes, sempre trazendo imagens de impacto, demônios, caveiras e criaturas, remetendo muito também ao gênero cinematográfico do horror, em uma época em que seu consumo estava muito ligado às locadoras de DVDs. Por trabalhar sempre com criaturas ocultas e bestiais, ele conta que de início houve uma certa resistência por parte de seu pai sobre seu trabalho. “Meu pai no começo deu uma ‘estilada’. Ele achava estranho eu passar a tarde mexendo em imagem de demônio e tal. Na verdade ele achava que eu tava brincando no computador. Até que ele viu que chegava dinheiro, entendeu como trabalho e passou a respeitar”, relembra.
 
O processo criativo de construção dos trabalhos surge de forma orgânica e pode durar horas ou até meses. Foto: Marco Antonio.
 
O processo criativo de construção dos trabalhos surge de forma orgânica e pode durar horas ou até meses, desde a seleção de elementos da narrativa visual até a edição da capa. “Quando a banda me procura, ela na maioria das vezes diz ‘fica livre para criar, tá aqui o nome do disco e a letra da música’. Então eu tenho todo um processo de pensar os elementos e criar uma narrativa que abarque aquele trabalho ali como um todo. A capa é muito importante nesse sentido, porque ajuda a vender o produto. Às vezes as pessoas compram o disco porque gostaram da capa”. Muito do processo passa pelas interpretações do próprio artista, tanto de suas abstrações, como dos elementos literais das letras que se tornam imagens.
 

Para Wilfred Gadêlha, jornalista e escritor do livro Pesado: Origem e consolidação do metal em Pernambuco, as capas do gênero passaram por uma evolução muito ligada ao avanço tecnológico. “Logo de início, tinha uma tradição forte de fotografias como capa. Depois tem a consolidação do heavy metal como afeito ao oculto, e aí vai para o desenho, que facilitava a representação dessas figuras. Nessa época temos a figura importantíssima de Derek Riggs, que foi um divisor de águas, criou muitas capas do Iron Maiden, incluindo o Eddie, o mascote da banda”, explica. No fim dos anos noventa, com os computadores e as possibilidades de manipulação de imagens, as capas se tornaram mais diversas.
 
Vale ressaltar que cada subgênero apresenta suas referências e códigos específicos, como a mitologia no folk metal ou a ameaça nuclear do thrash metal oitentista. Esse ethos particular do universo de cada subgênero representa para o jornalista uma maneira de conexão com o coletivo. “Uma coisa importante para o fã de heavy metal é o sentimento de pertencimento. Você tem toda ideia de que não é aceito pelas pessoas, então cada grupo desse tem estabelecido seus códigos visuais, gestuais e sonoros, que fazem que se sintam parte de um coletivo. É um estilo de vida”, completa.
 
Para Wilfred Gadêlha, jornalista e escritor do livro Pesado: Origem e consolidação do metal em Pernambuco, as capas do gênero passaram por uma evolução muito ligada ao avanço tecnológico. Foto: André Santa Rosa/Esp DP
 
Dentro de um mundo extremamente midiatizado, marcado por imagens que cotidianamente permeiam toda nossa cultura e afetos, o heavy metal encontrou na arte de Alcides um lugar de expressão para suas narrativas visuais. Mas não é só o gênero que ganha com a popularidade dos trabalhos do recifense: são os fãs, a cidade e o circuito de bandas locais. Wilfred fala que os discos e camisas são, também, a materialização da paixão: “Quando a gente era mais moleque e via um cara um camiseta de uma banda que você gosta, você tinha que ir lá falar com ele. O fã quer se sentir parte. Quer ter alguém que goste do mesmo ‘som estranho’ que ele”.
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