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COLUNAS

Reinvenções sustentáveis

Bioinvenção do Brasil para inspirar o mundo

Publicado em: 19/06/2019 07:14 | Atualizado em: 19/06/2019 09:07

Foto: Arquivo pessoal
O maior desafio do século 21 não é mais inventar produtos sofisticados, máquinas ou tecnologias inteligentes. A invenção mais necessária neste momento crítico da civilização é um sistema simplificador que possibilite sincronizar conhecimentos científicos;  gestão de bens comuns (recursos naturais); processos socioeconômicos (agroindustrialização, mercados, educação, empregos) e administração pública (política, democracia, governos) para obter um modelo de desenvolvimento justo e efetivamente sustentável.   

   O Brasil ainda não se destacou no cenário mundial com invenções originais de larga aplicação na Terra, mas tem todas as condições para fazer Bioinvenções: desenvolver modelos de Biogovernança e Bioeconomia que sejam referência e esperança para o mundo. 

   Biogovernar é gerenciar múltiplos processos sociais-culturais-econômicos-políticos-ambientais, com visão sistêmica, em plena sintonia com a conservação da vida planetária. Fomentar uma Bioeconomia é construir processos econômicos (agroflorestais, energéticos, hídricos, logísticos e industriais) integrados com resiliências e ciclos dos ecossistemas.

   Somando conhecimento multidisciplinar e criatividade com esses princípios, é viável criar modelos que orientem gestões sistêmicas e se adaptem a qualquer lugar ou bioma. Na coluna “Caatinga do Futuro” (29/5/19)  destaquei referências para o semiárido nordestino. 

   Na semana passada, a convite do prefeito de Macapá - Clécio Luis, e do dirigente nacional do Senai - Sérgio Moreira, imaginamos e discutimos, com especialistas, gestores e empreendedores, inovações para acelerar o ecodesenvolvimento desta capital amazônica. Na programação, o professor indiano Soumitra Dutta, estudioso de inovação da Cornell University - NY e da Global Business School Network, em Washington DC, palestrou sobre “Inovação: Salto Qualitativo para o Desenvolvimento” na Universidade Federal do Amapá. 

   Dutta é um dos editores do Índice Global de Inovação - ranking que avalia 80 indicadores de 126 países, onde o Brasil apareceu na vergonhosa 64ª posição em 2018  (www.globalinnovationindex.org). Ele acredita que o nosso país pode avançar se conseguir intensificar a conexão entre universidades e empresas. 

   Sim, não há dúvida que a junção de conhecimento acadêmico com empreendedorismo catalisa a formulação de soluções mercadológicas inovadoras. Mas, na construção de modelos avançados de desenvolvimento integral, é fundamental interconectar também governos inovadores e movimentos criativos da sociedade. 

   Um novo modelo de Biogovernança e Bioeconomia começa com um ambiente integrador de múltiplas iniciativas inovadoras: unindo empresas,  centros de pesquisa, governos e movimentos independentes, na estruturação colaborativa de cadeias produtivas circulares. 

   Um exemplo prático para a Amazônia é a articulação de eixos produtores de bioenergia a partir de resíduos de produtos agroflorestais, como as montanhas de caroços de açaí, que sobram dos processos atuais. Muitas cidades da floresta poderiam substituir o caro e poluente diesel fóssil nas embarcações, veículos e geradores de eletricidade por bio-óleo, aproveitando material orgânico. Áreas degradadas poderiam ser recuperadas com projetos agroflorestais, integrados com bioindústrias de fármacos, cosméticos, alimentos, embalagens biodegradáveis etc

   O inventivo empreendedor Mike Lu, biólogo e co-fundador da Plataforma Brasileira de Bioquerosene e Renováveis, destaca que já existem tecnologias disponíveis para instalação de pequenas unidades produtoras de diesel verde, usando resíduos orgânicos, óleo de cozinha reciclado e óleo vegetal, reaproveitando lixo e criando autonomia energética local de baixo carbono.

  Muitos profissionais e gestores criativos estão desenvolvendo ideias e ferramentas com visão sistêmica, que precisam apenas de uma interligação estratégica para compor esse novo modelo de Biodesenvolvimento:

 Como o engenheiro florestal Tasso Azevedo e rede de especialistas em biomas, sensoriamento e georreferenciamento, que utilizam a plataforma Google Earth Engine para monitorar a cobertura e o uso da terra de todo o Brasil no Sistema MapBiomas - Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo (com histórico digitalizado a partir de 1985 - http://mapbiomas.org/); 

   Como o cientista Carlos Nobre, climatologista, que vem desenvolvendo um modelo Bioeconômico para a Amazônia, genuinamente brasileiro, que propõe a multiplicação e a interligação de empreendimentos agrobioindustriais e laboratórios itinerantes de bioinovação para prospectar soluções sustentáveis, testar viabilidades e guiar a implantação dos novos modelos em larga escala.

   Temos a maior biodiversidade da Terra, a maior diversidade cultural formando um só povo (incluindo centenas de comunidades indígenas) e sabemos miscigenar e juntar diferenças para construir o novo. Portanto, temos tudo para fazer a maior invenção brasileira e inspirar o modelo de desenvolvimento planetário. Pra fazer acontecer, basta integrar inovadores da política, do empreendedorismo, da academia e da cidadania e ousar juntos, em sintonia.     
 
*  Sérgio Xavier é jornalista, consultor e desenvolvedor de inovações para a sustentabilidade (InovSi e Circularis - Porto Digital). É ecologista e foi Secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco. 

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