Colunas

Trabalho para reinventar o Brasil

Em 1º de maio o mundo para de trabalhar para celebrar o trabalho, o emprego e defender direitos de trabalhadores. No Brasil, mais de 13 milhões já estão parados, há anos, desempregados. Em março, foram fechadas mais de 43 mil vagas de carteira assinada. O novo presidente parece não ter um plano para reverter isso.

É paradoxal haver desemprego e ociosidade diante de tantos problemas que só podem ser resolvidos com muito trabalho. Precisamos de habitação, água, saneamento, estradas, regeneração de ambientes naturais, energias renováveis, reciclagem em larga escala, educação profissionalizante etc, enquanto milhões estão sem ocupação, sem renda e sem condições mínimas de vida, ampliando desigualdades, desagregações, baixo astral e violências...

Se há mão de obra parada e tantas urgências é porque está faltando imaginação para ligar e gerenciar ofertas e necessidades. Ocupar as pessoas para resolver problemas inadiáveis, considerando suas capacidades e incorporando novos paradigmas sustentáveis, é o turning point que precisamos para acelerar o desenvolvimento socioeconômico do Brasil. Ou seja, promover a ocupação produtiva em larga escala é o ponto de inflexão para unir forças dispersas, animar a sociedade e impulsionar uma virada virtuosa sobre esta situação calamitosa que atrasa e fragmenta o país.

Criação de empregos (carteira assinada), oportunidades de trabalho (flexíveis e criativas) e incentivos a empreendedores (em especial a microempresas) compõem um forte eixo propulsor para solucionar diversos problemas simultaneamente e catalisar transformações. Além de resolver o desemprego, ajuda a melhorar muitos indicadores. Saúde, educação, habitação, profissionalização, segurança, bem-estar, autoestima, capacidade criativa, relacionamentos familiares, cultura, motivação... tudo melhora quando todos têm atividades produtivas, dignas e remuneradas. Mas como criar emprego, trabalho e renda para tanta gente e rapidamente?

Existem mil maneiras, mas é preciso redefinir prioridades estratégicas (incentivando setores com geração imediata e sustentável de empregos); agregar inovações (tecnologias e metodologias mais eficientes para resolver carências estruturais); fazer contas diferentes (reinventar e recombinar fontes de financiamento, considerando o custo evitado e convertendo desperdícios); ter novos pontos de vista (agregar olhares diversos e ousados) e criar combinações inéditas (parcerias e somas de recursos de vários setores), sem repetir velhas receitas (considerando realidades contemporâneas, como a chegada da ambígua Inteligência Artificial, que poderá substituir humanos por algoritimos).

A gigantesca cadeia produtiva da reciclagem (indústria reversa, transformando lixos em matérias primas e energia); produção de biocombustíveis; urbanização e saneamento comunitário (reduzindo custos da saúde); microgeração solar; eficiência hídrica (serviços para economizar água e coletar chuva, evitando inundações e prejuízos nas cidades); hortas urbanas e digitalização de processos (reduzindo custos e melhorando serviços públicos) são algumas alternativas que podem gerar muitas oportunidades de trabalho, no rumo do desenvolvimento sustentável. Mas o governo federal precisa sair do estágio virtual e focar em resultados práticos, implantando políticas públicas interconectadas.

O roteiro é simples: 1) Priorizar os maiores problemas estruturais e desperdícios (a política econômica deve focar nas soluções de grandes problemas coletivos); 2) Promover incentivos com metas claras (para órgãos governamentais e empresas); 3) Fomentar a difusão de conhecimentos (cursos gratuitos pela internet, com redes de parceiros, para rápida formação profissional); 4) Criar canais de monitoramento de resultados e absorção de ideias inovadoras. Um incentivo inovador poderia ser um Bolsa-Emprego. O governo daria um valor básico por 3 a 6 meses para um(a) profissional desempregado(a) apoiar projetos de pequenas empresas, com o compromisso de ser contratado(a) pela empresa por, no mínimo, igual período. Ou seja, o inverso do improdutivo e desanimador seguro-desemprego.

Milhões de desempregados, robotização, disrupções no mercado de trabalho, reforma da Previdência (que sempre ameaça os mais pobres), perda de associados e de receitas são desafios atuais dos sindicatos. Proliferação de trabalhos temporários e à distância; categorias profissionais que desaparecem e surgem na velocidade digital; ameaça de uma sociedade “pós-trabalho” com máquinas inteligentes substituindo pessoas, são questões que instigam os líderes sindicais a saírem da pauta básica de salários e direitos trabalhistas para imaginar novos modos de valorizar trabalhadores (com igualdade entre homens e mulheres), num ambiente empresarial cada dia mais volátil, digitalizado e flexível. Tempo de um novo sindicalismo do conhecimento.

Neste cenário crítico, governantes, empresários e trabalhadores precisam dialogar e se abrir para inovações. As múltiplas crises brasileiras pedem urgência por nova postura, imprescindível na construção de uma sociedade produtiva, diversa e feliz. Trabalho no século 21 tem que ser justo, inclusivo, sustentável, libertário, criativo, prazeroso e transformador! Só um trabalho assim pode reinventar um país.

*Sérgio Xavier é jornalista, consultor e desenvolvedor de projetos de inovação tecnológica para sustentabilidade (InovSi e Circularis - Porto Digital). É ativista ambiental e foi Secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco.

Leia a notícia no Diario de Pernambuco
Loading ...