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Ipiranga

Muro histórico ao redor da árvore mais antiga de São Paulo é demolido

Publicado em: 12/07/2019 19:58

Foto: Google/StreetView
Figueira das Lágrimas, que teria feito sombra a dom Pedro I no Dia da Independência, ficará desprotegida

Um muro histórico, que protegia a árvore mais antiga de São Paulo, foi demolido nesta quinta-feira, 11. Prestes a completar 100 anos, ele cercava a Figueira das Lágrimas, no Ipiranga, e teve a derrubada autorizada para obras de requalificação na praça. 

Tombada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo (Conpresp), a figueira ganhou renome por ter feito sombra a figuras ilustres. A Estrada das Lágrimas, que a árvore margeia, é citada por estudiosos como o trajeto usado por Dom Pedro I no dia 7 de setembro de 1822. O grito de independência, às margens do Riacho Ipiranga, teria ocorrido pouco depois de passar pela árvore. 

Calcula-se que tenha ela nascido em 1780. O muro foi construído em 1920 pelo então prefeito Firmiano Pinto para proteger o patrimônio. A inauguração colocou ali uma placa de bronze com a inscrição de um poema do historiador Eugênio Egas, de 1920, sobre a "árvore das lágrimas e das saudades". A placa foi furtada há algumas décadas. 

A demolição, aprovada pela Prefeitura, espantou a moradora Yara Rodrigues, de 63 anos, que liderava uma iniciativa para a restauração do muro. Yara mora no local há cinco décadas e é proprietária de parte do terreno que estava cercado. 

"A gente pedia a restauração, e não o que fizeram", diz Yara. Ela foi informada por engenheiros contratados pelo município que com a demolição do muro, a praça agora ficará aberta à população. A mudança gera preocupações com a preservação do espaço e da figueira, com o risco de invasão e depredação. "Já vieram fazer barracos aqui dentro e eu não deixei, tive que enfrentar as pessoas fazendo barraco lá", conta a moradora. "Durante todos esses 50 anos, fui eu que cuidei."

Fotos publicadas nas redes sociais pelo arquiteto e biólogo Ricardo Cardim mostram que o gradil foi feito de rampa para um carrinho de construção. As obras também danificaram as raízes da árvore, conforme a reportagem constatou no local.

"A partir do momento em que um carrinho de mão passa por cima de uma grade histórica, no mínimo não tem ninguém orientando esses funcionários a tomarem uma postura de cuidado com o material histórico", diz Cardim. "É um material nobre, tem uma grade artística de uma outra época, uma base de pedra granita lapidada a mão."

Requalificação

A Prefeitura Regional do Ipiranga informou que o processo para a requalificação da praça teve início em abril e que a obra visa "preservação da memória da população local e da história da urbanização de São Paulo". A Prefeitura diz que a intervenção foi aprovada pelos órgãos de preservação do patrimônio. "Em 3 de julho, foi autorizado o início do serviço de conservação do muro lateral e a requalificação do local, já iniciados e com prazo total de 120 dias", informou a gestão municipal, em nota.
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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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