entrevista 'Bolsonaro compromete o crescimento do país', diz Kim Kataguiri

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 12/09/2019 07:11 Atualizado em:

Vinicius Cardoso/Esp. CB/D.A Press
Vinicius Cardoso/Esp. CB/D.A Press
Líder do Movimento Brasil Livre (MBL), o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP) aumentou o tom das críticas ao presidente da República e a membros da família Bolsonaro. Em entrevista ao programa CB.Poder, parceria do Correio com a TV Brasília, Kataguiri elogiou os ministros técnicos da gestão de Bolsonaro, com exceção do chefe da pasta do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, que, para ele, “deve explicações” sobre o envolvimento com laranjas na campanha eleitoral. O parlamentar ainda comentou sobre o futuro da Operação Lava Jato após as recentes publicações da chamada “Vaza Jato”. E disse que a instabilidade política causada pelos discursos do presidente está comprometendo a agenda econômica e o crescimento do país.

Como caracterizaria hoje o governo Bolsonaro?
É um governo que, em sua maioria, tem ministros técnicos, que fazem um bom trabalho, como Tereza Cristina (Agricultura), Tarcisio Freitas (Infraestrutura) e Paulo Guedes (Economia). A exceção é o ministro do Turismo (Álvaro Antonio, acusado de usar laranjas para receber verbas eleitorais), que precisa dar explicações. Mas, o principal sabotador do governo é o presidente Jair Bolsonaro e seu núcleo de articulação política, que se envolve em polêmicas desnecessárias e não se junta na Câmara para proteger os interesses do Executivo. No início do ano, a perspectiva era de a economia crescer 3%. Hoje, é de 0,83%. A instabilidade política causada pelos discursos do presidente compromete a agenda econômica.

A Lava Jato vive um momento de inflexão em função de episódios como a indicação do novo procurador-geral da República e a tensão com o Supremo Tribunal Federal? 
O presidente da República tenta blindar o próprio filho, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), e isso gera efeitos para todos os outros casos. O STF suspendeu os processos envolvendo compartilhamento de informações do Coaf para o Ministério Público, o que paralisou todas as investigações desse tipo, inclusive a lavagem de dinheiro de organizações criminosas. Além disso, você teve a indicação de um procurador-geral da República crítico à Lava Jato, que afirma que a operação quebrou a economia e criminalizou a política, como se quem tivesse cometido os crimes não tivesse quebrado a economia, e, sim, aqueles que os investigaram. A Lava Jato vive um momento delicado.

Qual é a sua análise da Vaza Jato?
É preciso ver o que é real ou não, e o fato de os diálogos terem sido obtidos de maneira ilegal. Se você critica os excessos da Lava Jato — que existiram, eu concordo —, não pode defender obtenção de prova ilícita. Isso inviabiliza a punição tanto do ministro Moro quanto do procurador Dallagnol, porque tudo aquilo que decorre da prova ilícita é nulo para fins de acusação. Porém, a jurisprudência do Supremo diz que pode ser usado na defesa dos implicados na Lava Jato.

Como vê as últimas declarações do vereador Carlos Bolsonaro a respeito da democracia?
Carlos Bolsonaro é um trem desgovernado, sem freio, prestes a bater na República e causar grandes estragos com seus arroubos autoritários e com seu sectarismo. É a pessoa que mais puxa o governo Bolsonaro para o desastre e para o radicalismo. Ele tenta impor o pai como uma figura hegemônica na direita. Busca fazer com Jair Bolsonaro a mesma coisa que o PT fez com o Lula: sufocar todas as outras lideranças de seu espectro político. É perigoso para a democracia.
Recentemente, o senhor bateu boca com o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) nas redes sociais. Como é a relação na Câmara? Outro dia parece que quase foram às vias de fato.
Eu jamais iria para as vias de fato, meu debate é ideológico. É um absurdo ele ser candidato a embaixador em Washington. Como é que vamos ter como embaixador em Washington uma pessoa que fala inglês tão bem quanto Joel Santana? É uma piada, é um escárnio com a República. Ele representa governo, opina, fala de arma, apoia Trump. Isso não é postura de chefe de representação diplomática. O diplomata representa os interesses do seu país, não pode apoiar candidato X ou Y, republicanos ou democratas. O relacionamento não é pessoal, é de Estado para Estado.

O senhor faz uma avaliação negativa do governo Bolsonaro. Mas o MBL o apoiou no primeiro e no segundo turno. Por quê?
Foi voto útil. Na última semana do primeiro turno, sabíamos que o segundo turno seria Haddad contra Bolsonaro. O único recurso que sobrou para o PT é a radicalização. E isso envolveria, como o próprio programa do Haddad previa, o aparelhamento do Ministério Público, do Judiciário. Havia também o risco de um presidente da República conceder graça a um condenado em detrimento de uma decisão do STF, o que causaria um caos institucional. O governo Haddad seria bem pior. Mas Bolsonaro é o governo dos sonhos? Não, e justamente por tê-lo apoiado, tenho a responsabilidade de criticar quando comete erros.


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