Música Pernambucana Alessandra Leão faz 'oferenda' afro-brasileira em novo álbum

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 12/06/2019 09:31 Atualizado em:

Foto: Bia Varella/Divulgação
Foto: Bia Varella/Divulgação
A cantora, compositora e instrumentista pernambucana Alessandra Leão enxerga as religiões afro-brasileiras como manifestações repletas de “camadas”, pois nada está totalmente explícito e alguns rituais são rodeados por segredos. Em uma mesma doutrina, por exemplo, alguns princípios podem variar de “casa para casa”. Essa característica norteou a artista no processo de produção e idealização de Macumbas e catimbós, quinto álbum de sua carreira, lançado no final de maio pelo selo Garganta Records. São 15 faixas com fortes referências ao candomblé, à umbanda e à jurema. Lia de Itamaracá, Mateus Aleluia e Sapopemba estão entre as participações, além de Karina Buhr e Isaar nos coros festivos.

“Tudo nesse projeto tem camadas: as composições, os instrumentos e o processamento das vozes. Quanto mais você escuta as músicas e vê as imagens, vai acessando outras informações e elementos não perceptíveis na primeira experiência”, explica Alessandra, em entrevista ao Viver. Sua relação com o maracatu de baque solto, coco e cavalo-marinho começa nos anos 1990, durante uma ida à Zona da Mata Norte de Pernambuco acompanhada pela banda Mestre Ambrósio, de onde saíram Siba e Helder Vasconcelos.

“Eu já conseguia enxergar a música como um ponto de conexão com a religião quando assistia uma missa, por exemplo. Mas a Mata Norte me apresentou um outro lugar do sagrado, ligado ao tocar na rua e estar junto. Me interessei pelas religiões, mas também pela estética envolvida, e passo a tocar o ilú, tambor utilizado em rituais religiosos do candomblé e jurema em Pernambuco”, conta. A cantora integrou a banda Comadre Fulozinha no final da década de 1990. Depois, entrou em carreira solo e lançou os álbuns Brinquedo de tambor (2006), Folia de santo (2008), Dois cordões (2008) e Guerreira (2010), uma trilha sonora para o espetáculo homônimo de Luciana Lyra.

Foto: Bia Varella/Divulgação
Foto: Bia Varella/Divulgação
O Macumbas e catimbós vem nove anos após o último álbum, mas Alessandra nunca parou de produzir. Em 2015, mudou-se para São Paulo e, pouco depois, ingressou em uma casa de umbanda, onde tornou-se uma Ogan (pessoa responsável por tocar e cantar nos rituais), um episódio que deve refletir no seu atual momento artístico. “Em 2017, fiz uma temporada em São Paulo com quatro shows de improviso. Um deles foi o Macumbas e catimbós. Convidei Abuhl Junior e Maurício Badé para fazer parte, e Juliana Godoy para montar a cenografia. O repertório estava mergulhado intensamente na minha relação com o terreiro, e isso acabou virando um disco.”

Alessandra ressalta que o álbum não pretende ser uma “gira” ou um “xirê”, mas sim uma celebração e oferenda. Ela inaugura o disco com Sete encruzilhadas, uma homenagem a Exu, entidade que costumeiramente “abre caminhos”. Seguem citações à Ogum, Iemanjá, Oxóssi e malunguinho, entidade da Jurema. O encerramento é com Hasteia a bandeira, homenagem à Oxalá que geralmente encerra as giras nos terreiros. A intérprete também nega que o álbum tenha um cunho inteiramente religioso. “É sobre o Brasil, principalmente o Nordeste. Diz sobre nossa formação cultural, social, religiosa e, sobretudo, musical. Então, não é apenas para quem é iniciado na religião, é um disco de música brasileira”. 

Foto: Bia Varella/Divulgação
Foto: Bia Varella/Divulgação
Macumbas e catimbós também veio acompanhado por um livro que reforça a identidade visual e as temáticas que circundam o projeto - não de forma didática, mas sim ref lexiva. Conta com textos da intérprete do álbum, da cantora e professora Juçara Marçal e do estudioso Luiz Antônio Simas. Todos abordando macumbas e catimbós de dentro do Brasil. Na maioria das fotos de Bia Varella, a cenografia montada por Julia Godoy mostra Alessandra em meio a plantas e tambores. “No universo das macumbas, há um pensamento integrado da natureza toda como sagrado. Eu, você, nós todos. Gente, bichos, planta como parte integrante e não acima da natureza. Cada coisa tem camadas e segredos para serem aprendidos, trabalhados e guardados em conjunto”, finaliza a pernambucana.

Ouça o álbum:



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