História Livro elenca história e patrimônios de Santo Antônio e São José para entender o Recife Dois Bairros Irmãos enxerga área como lócus que emana identidade cultural, social e afetiva de Pernambuco

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 11/06/2019 12:49 Atualizado em: 11/06/2019 12:50

Praça da Independência, conhecida como Pracinha do Diario, em Santo Antônio. Foto: Arquivo/DP/D.A Press
Praça da Independência, conhecida como Pracinha do Diario, em Santo Antônio. Foto: Arquivo/DP/D.A Press
A capital pernambucana teve sua gênese no Recife Antigo, mas a expansão gradativa e natural ocorreu nos bairros de Santo Antônio e São José, a partir do século 17. Por isso, ambos são vitais para entender a cidade em diversos aspectos, servindo como lócus que emana identidade cultural, social e afetiva, agregando inúmeros patrimônios materiais e imateriais da nossa sociedade. Resgatar e elencar toda essa riqueza, quase como um inventário, é a proposta do livro Dois bairros irmãos - O patrimônio imaterial dos bairros de Santo Antônio e São José, no Recife (Babecco Editora, 302 páginas), organizado por Jacques Ribemboim. 

A iniciativa é da A Negra Produções, com apoio financeiro do Funcultura. A obra é resultado de uma pesquisa em equipe iniciada em 2013 por Jacques Ribemboim, Osman Godoy, Ana Pereira, Lorena Veloso, Nicole Costa, Conceição Fragoso e outros nove consultores colaboradores. Eles se basearam na metodologia do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, criado de acordo com orientação das Nações Unidas, através da Unesco. A catalogação divide a investigação em quatro “livros”: dos saberes, das celebrações, formas de expressão e dos lugares.

“É uma pesquisa em equipe procurando resgatar e ‘inventariar’ essa herança cultural imaterial que chega ao presente. De modo que a gente pode dizer que não é um livro sobre o passado, mas um livro sobre o momento atual. Existe esse vínculo com o passado que temos de herança. É nosso dever salvaguardar esse patrimônio”, diz Ribemboim, que é economista ambiental, escritor e professor da UFRPE.

Vista aérea do Porto do Recife, Cais de Santa Rita e do bairro de São Jose, em 1971. Foto: Arquivo/DP/D.A Press
Vista aérea do Porto do Recife, Cais de Santa Rita e do bairro de São Jose, em 1971. Foto: Arquivo/DP/D.A Press
A pesquisa resgata até mesmo a origem da ocupação humana nos bairros, que remonta ao século 16, quando havia apenas alguns sítios e barcos. Com a chegada de Maurício de Nassau no século seguinte, a “Ilha de Antônio Vaz” - como a área era chamada - passou por significativas mudanças de urbanização, inspiradas em modelos europeus. Após a expulsão dos holandeses, os bairros foram ganhando finalidades diferenciadas.

Santo Antônio virou o local de residência e trabalho das classes sociais mais altas, responsáveis pela administração pública, profissões liberais, atividade jurídica e de imprensa. Isso pode ser atestado atualmente numa caminhada pela Praça da República, por exemplo, que agrega o Palácio do Campo das Princesas, o Teatro de Santa Isabel e o Tribunal da Justiça de Pernambuco. Três prédios imponentes, que mostram o passado glorioso do bairro. Já São José passou a abrigar o comércio popular e armazéns, até hoje sediando o principal mercado público na cidade. Também existe destaque para os blocos de carnaval.

Praça da Independência em 1912 e Desfile do bloco Batutas de São Jose durante o Carnaval. Fotos: Arquivo/DP/D.A Press
Praça da Independência em 1912 e Desfile do bloco Batutas de São Jose durante o Carnaval. Fotos: Arquivo/DP/D.A Press
Após introdução de cada bairro, a obra passa a elencar a riqueza cultural pela catalogação da Unesco. O Livro dos Saberes agrega o histórico e as características das atividades de pesca, comércio popular, culinária, cais e navegação. No tópico “tradição de imprensa”, a obra faz uma listagem dos 40 jornais que já passaram pela área, a exemplo do Diario. O Livro das Celebrações aborda o auge e o declínio do carnaval de São José, a Noite dos Tambores Silenciosos, a religiosidade afro-brasileira, as irmandades de pretos e pardos e as inúmeras celebrações cristãs. O Livro das Formas de Expressão traz a arquitetura, artes visuais e cinema - já chegaram a existir 16 nestes bairros. Por último, o Livro dos Lugares esmiúça todas as localidades que marcaram o cotidiano e a efetividade dos recifenses.

Ao ler tanta história dos dois bairros, o leitor pode se perguntar, por exemplo, onde estava a abastada Zona Norte na época. Jacques diz que, no passado, bairros como Casa Forte, Poço da Panela e Madalena tinham caráter quase campestre. “O campo naquela época eram os subúrbios. Os ricos tinham fazendas, sítios e gostavam de passar o veraneio em locais cortados pelo Rio Capibaribe.O chique mesmo era a Rua do Imperador, em Santo Antônio. Muitas vezes, essas famílias tinham uma casa no Centro e outra em um desses bairros.”

A Zona Sul, então, é ainda mais recente, começando a ser ocupada pela classe média nas décadas de 1960 e 1970. Hoje, os “bairros irmãos” entraram em declínio juntos. “É um reflexo do nosso Centro em geral no final do século 20, se intensificando entre os anos 2000 e 2010. Isso é explicado em parte pela ascensão do comércio na periferia, que não existia, e pelos shopping.” Hoje, a área se depara com um empreendimento que mudará seu horizonte: o projeto Novo Recife, com prédios de luxo construídos para a classe média alta da cidade.


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