Artes visuais Exposição retrata beleza e resistência dos terreiros de candomblé pernambucanos

Por: Juliana Aguiar - Diario de Pernambuco

Publicado em: 23/04/2019 09:52 Atualizado em: 23/04/2019 14:37

Foto: Roberta Guimarães/Divulgação
Foto: Roberta Guimarães/Divulgação
Agô. Com o termo de origem iorubá, que significa "pedir licença", a fotógrafa pernambucana Roberta Guimarães imerge nos terreiros de xangô de Pernambuco e lança seu olhar sobre os cultos de religiões de matrizes africanas. Os registros foram traduzidos na exposição que abre as portas nesta terça-feira (23), às 19h, e segue até 2 de junho, no Museu do Estado de Pernambuco (Av. Rui Barbosa, 960, Graças - Sala Lula Cardoso Ayres, 1º andar). A vernissage tem entrada gratuita e nos demais dias o acesso custa R$ 6 e R$ 3 (meia).

A mostra Agô reúne 40 fotografias, vídeos e projeção com imagens dos elementos da natureza que representam os orixás, conduzindo o espectador à diversidade, ao combate do preconceito e à reafirmação dos direitos humanos. A curadoria é assinada pelo antropólogo carioca Raul Lody, especialista em religiões afro-brasileiras, e a produção-executiva é da Imago e da Janela Gestão de Projeto.

"Como eu não sou iniciada no candomblé ou umbanda, meu local de fala é diferente. É de observadora. Meu trabalho traz uma visão estética do espaço de culto de origem africana, mas com muito respeito", explica Roberta. Por mais de três anos, a fotógrafa visitou 14 terreiros, em Olinda, Goiana e Cabo de Santo Agostinho, produzindo material para compor o livro O sagrado, a pessoa e o orixá, lançado em 2013. A obra serviu de inspiração para a exposição Agô, que teve sua estreia em João Pessoa-PB há cinco anos. A publicação conta com a participação ativa de Raul Lody no resgate da história do candomblé no Brasil. “O trabalho caminhou nos muitos momentos do sagrado de matriz africana, que se mostram nos rituais, cores, formas, texturas. É um depoimento visual emocionado que chega com imersões profundas nas muitas interpretações sobre este patrimônio de fé", explica Lody.

O encontro de Roberta com a cultura afro foi construído ao longo de anos. Quando pequena, a mãe a levava para festas de Iemanjá com flores e oferendas nas mãos. A moça que trabalhava em sua casa, Ieiê, também foi determinante para o despertar do olhar. Seu nome remete à “mãe de todos os filhos que são peixes”. Através da leitura de livros escritos por autores africanos, a fotógrafa se identificou com os contos presentes em Cada homem é uma raça, do moçambicano Mia Couto, que versam sobre espiritualidade. Além disso, ela menciona a relação iniciada em 2009 com a Caminhada dos Terreiros, evento que reúne praticantes da umbanda, jurema e candomblé no Recife.

Foto: Roberta Guimara%u0303es/Divulgação
Foto: Roberta Guimara%u0303es/Divulgação
“Essas religiões trazem um sentido sagrado que é vivido na dança, no canto, na comida, na tradição oral, na roupa e no adereço. Cada terreiro é um lugar de transmissão de saberes e de construção de cidadania.” Para realizar o trabalho, Roberta chegou a passar mais de 12 horas seguidas fotografando rituais e cerimônias mais longas. Em outros momentos em que não era autorizada a registrar, como a transformação de orixás, ela recorreu à simulação através da construção de um cenário com as cores características de cada entidade.

“Os povos e as tradições africanas estão presentes na formação da cultura brasileira. Na história e na sociedade, sempre resistiram para preservar suas tradições e identidades. Por isso, pelo respeito e pela força do movimento, é preciso reverenciar, valorizar e apresentar os cultos para quem não conhece. Mostrar que existe muita solidariedade, amor e preservação da natureza”, afirma. Mario Cravo Neto e Pierre Verger são alguns nomes que inspiraram o projeto.

Para o antropólogo Raul Lody, o trabalho se faz importante também para a eliminação do preconceito religioso e de raça. “Hoje em dia, vivemos em um cenário extremamente hostil a manifestações de matrizes africanas, com muita violência e racismo permanente, então essa mostra se propõe a eliminar um pouco o olhar preconceituoso. Ela educa, sensibiliza e promove reflexão. Não é apenas uma exposição, é um ato formador a partir de uma etnografia visual”, explica. Com quase 86 milhões de residentes com origens africanas, o Brasil é o país com maior população negra fora da África.

CROSSDRESSING
Foto: Roberta Guimara%u0303es/Divulgação
Foto: Roberta Guimara%u0303es/Divulgação
Ao percorrer a mostra, várias projeções vão se entrelaçando na narrativa, como o caso do vídeo crossdressing, que narra a transformação de dois filhos de santos em divindades de sexo oposto. Jefferson, um dos homens fotografados, tem Oxum como seu orixá e, para reverenciá-la, aprendeu a movimentar o corpo e a dançar passos tidos como mais femininos. O rito mostra que a religião não carrega estigmas com a sexualidade. As imagens de Roberta são apresentadas com edição de Pedro Andrade (Jacaré Vídeo).

Roberta é formada em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco e cursou fotografia no Instituto Superiore di Fotografia de Roma (Itália). É do coco, é do coqueiro, Eu vi o mundo e ele começava no Recife e Olaria ocre são outros trabalhos da fotógrafa, em parceria com os artistas Dantas Suassuna e Joelson Gomes. No próximo ano, ela fará uma viagem à África, traçando o mesmo percurso que os fotógrafos Pierre Verger e Roger Bastide fizeram em décadas passadas, de Benim a Nigéria, para entender a história que resultou no candomblé brasileiro.

Visitas guiadas
Em parceira com o Instituto de Cegos e o SUVAG, serão realizadas quatro visitas guiadas à exposição, direcionadas a pessoas com deficiência visual e auditiva. A mostra contará também com audiodescrição para as fotos expostas, com libras, e legendas para surdos e ensurdecidos (LSE) nos vídeos. Cerca de 20 imagens disponíveis na mostra serão doadas, em formato digital, para o acervo da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), que se destaca em pesquisas de cultura afro no Nordeste.

Serviço
Exposição Agô, de Roberta Guimarães
Quando: de 23 de abril a 2 de junho
Onde: Museu do Estado de Pernambuco (Av. Rui Barbosa, 960, Graças - Sala Lula Cardoso Ayres, 1º andar)
Quanto: R$ 6 e R$ 3 (meia) - a vernissage, nesta terça-feira (23), será gratuita


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