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Terra dos engenhos Em Vicência, interior de Pernambuco, 450 crianças aprendem italiano No município da Mata Norte, onde a paisagem é predominante de cana de açúcar, meninos e meninas ganham oportunidade de estudar uma língua latina de forma gratuita

Por: Aline Moura - Diario de Pernambuco

Publicado em: 12/05/2017 08:00 Atualizado em: 13/05/2017 14:17

Aniele Maria iniciou o curso este ano e faz parte de uma das 17 turmas abertas para 450 alunos. Foto: Paulo Paiva/DP
Aniele Maria iniciou o curso este ano e faz parte de uma das 17 turmas abertas para 450 alunos. Foto: Paulo Paiva/DP

Aniele Maria Santana da Silva, 12 anos, mora na conhecida terra dos engenhos, no município de Vicência, Mata Norte do estado. A cana de açúcar é a paisagem que cerca sua casa, no Engenho Imbu, mas a adolescente não abre mão de ir à escola municipal Maria José Monteiro, mesmo em dias de chuva, quando a estrada da área fica quase intransitável. A garota foi incentivada pela mãe a estudar italiano com apoio do Centro de Línguas do município, que abriu 17 turmas para 450 crianças e jovens este ano. Como Aniele, quase 70% dos estudantes da língua latina são de escolas públicas de Vicência. Eles podem ter mais facilidade de entrar no mercado de trabalho, especialmente nas áreas de educação, engenharia, moda, gastronomia, música lírica e clássica, além do cinema. É um novo mundo que se abre. São laços que vão além das relações comerciais entre os dois países.

A integração das crianças com o projeto é tão intensa que o Centro de Línguas, fundado em 1999 nesta cidade, recebeu, em festa, a visita do cônsul do Recife, Gabor de Zagon. Ele levou parte da equipe e assistiu a uma apresentação de maracatu, que integra a cultura local, e ao show de um coral formado por crianças que cantavam em italiano a música Ci vuole em fiore (nós precisamos de uma flor). A música é simbólica para os meninos do interior pernambucano, que terão os horizontes ampliados. Num trecho da letra, eles cantam per fare il frutto ci vuole il fiore (para fazer o fruto, tem que ter uma flor). 

Natural de Vicência, professor decidiu levar o estudo da língua para sua cidade depois de passar um tempo na Itália, na década de 1970. O Curso de Línguas do qual é fundador já formou 21 professores. Foto: Paulo Paiva/DP
Natural de Vicência, professor decidiu levar o estudo da língua para sua cidade depois de passar um tempo na Itália, na década de 1970. O Curso de Línguas do qual é fundador já formou 21 professores. Foto: Paulo Paiva/DP

As aulas de italiano são oferecidas de forma gratuita no Centro de Línguas, na própria escola de Aniele e em cinco outras unidades de ensino municipal. Quem levou a ideia para Vicência foi o professor José Francisco de Melo, que é natural de Vicência. Ele esteve na Itália nos anos 1970 e decidiu levar o que aprendeu com a cultura Danti Alighieri para sua terra natal. Hoje, o centro já formou 21professores de italiano e sete alunos já foram para a Itália.

As vagas de 2017 estão preenchidas por 320 alunos de Vicência, transformada num pedacinho da Itália em Pernambuco, e 130 para estudantes de São Vicente Ferrér, outro município próximo. Os estudos são financiados pela cultura Danti Alighieri/Recife, com apoio da prefeitura municipal em infraestrutura. Dois alunos do último ano recebem bolsa de intercâmbio para ir à Itália e a prefeitura se comprometeu em oferecer mais duas assim que finalizar um projeto semelhante. “É necessário ocupar as crianças no caminho do conhecimento”, declarou o professor Melo, emocionado.

Ailton José, estudante de escola pública, diz que tem muitos sonhos para realizar quando terminar o curso de italiano. Foto: Paulo Paiva/DP (Ailton José, estudante de escola pública, diz que tem muitos sonhos para realizar quando terminar o curso de italiano. Foto: Paulo Paiva/DP)
Ailton José, estudante de escola pública, diz que tem muitos sonhos para realizar quando terminar o curso de italiano. Foto: Paulo Paiva/DP

Os custos das aulas não foram divulgados, ontem, mas os frutos estão sendo produzidos. O irmão de Aniele, Ailton José, 10 anos, também se matriculou para aprender a nova língua e diz ter tantos sonhos que nem sabe expressar. “Eu quero estudar, porque tenho muitos sonhos”, disse ele. “Eu posso ser até professora de italiano”, acrescentou a irmã mais velha. “Acredito que tudo vai melhorar para mim. E, se eu estudar muito, posso ir para a Itália”, completou Aniele.

Crianças sonham em viajar para a Itália e ter mais chance na vida profissional. Na foto, estão Éverton Carlos, Evellyn Kelly (c) e Adla Kauanne (D) Foto: Paulo Paiva/DP
Crianças sonham em viajar para a Itália e ter mais chance na vida profissional. Na foto, estão Éverton Carlos, Evellyn Kelly (c) e Adla Kauanne (D) Foto: Paulo Paiva/DP

Segundo o cônsul, é fundamental para seu país estimular iniciativas como esta. “Aqui não é só uma escola que você aprende a língua italiana. Eles também ensinam o modo de viver e isso ajuda as pessoas a entrarem em conexão e sintonia com meu país. Faz parte do meu trabalho e da nossa missão estreitar as nossas relações para que essas crianças possam crescer com a ideia de que a Itália é um país para onde eles podem viajar, ter um futuro ou uma relação de amizade. Essas crianças vão ter mais portas abertas”, afirmou Gabor de Zagon.

Cônsul da Itália no Recife, Gabor de Zagon, visitou cidade do interior para ver experiência de sucesso. Segundo ele, curso gera conexões não só comerciais, mas culturais e econômicas. Foto: Paulo Paiva/DP
Cônsul da Itália no Recife, Gabor de Zagon, visitou cidade do interior para ver experiência de sucesso. Segundo ele, curso gera conexões não só comerciais, mas culturais e econômicas. Foto: Paulo Paiva/DP

Volare
Durante a visita do cônsul a Vicência, o auditório lotado de crianças acompanhou o solo da jovem Ana Paula, que esta prestes a se formar em italiano. Ela cantou “Volare”, com o audiência seguindo o mesmo ritmo. Em português, Volare significa voar.

A roda
As crianças ficaram tão animadas com a presença do cônsul que algumas o cercaram para abraçá-lo, com um sorriso no rosto. Gabor de Zagon começou a falar em italiano com um dos garotos, Éverton Carlos Alexandre, 9 anos, e ele tomou um susto: “O quê?”, perguntou Éverton. Depois da surpresa, o menino começou a responder às perguntas feitas pelo consul em italiano.

Outra menina, Evellyn Kelly, contou estar dando continuidade ao sonho da mãe, Jaqueline Gonçalves, 29 anos. “Minha mãe tinha um sonho de aprender italiano, mas eu nasci e não parava de mamar. Ela queria cuidar de mim e não queria me deixar sozinha. Agora,  eu já posso aprender. O italiano vai me ajudar a saber de outros lugares, vai me ajudar na minha profissão”, contou Evellyn Kelly, de 11 anos, que está no início dos estudos.



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