violência Família tenta reconstruir laços com irmã de Rhuan Maycon

Por: Walder Galvão - Correio Braziliense

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 12/06/2019 19:04 Atualizado em:

O fanatismo religioso das acusadas pode ter sido uma das motivações para o crime - Foto: Alexandre de Paula/CB/D.A Press
O fanatismo religioso das acusadas pode ter sido uma das motivações para o crime - Foto: Alexandre de Paula/CB/D.A Press
Dor, medo, humilhação e tortura marcaram os últimos cinco anos de vida de Rhuan Maycon, 9 anos, concluiu a Polícia Civil do Distrito Federal. Assassinado e esquartejado pela mãe, Rosana Auri da Silva Cândido, 27, e pela madrasta, Kacyla Priscyla Santiago Damasceno, 28, a vítima teve o pênis cortado, era impedido de ir à escola ou de socializar com outras pessoas. Nesta terça-feira (11/6), os agentes encerraram a primeira etapa da investigação e encaminharam o inquérito à Justiça. Além de homicídio qualificado, as acusadas responderão por mais quatro crimes cometidos antes e depois da morte do menino. Somada, a pena pode chegar a 57 anos de prisão.
 
A conclusão do exame cadavérico permitiu que os investigadores identificassem outras agressões cometidas pelas mulheres. Inicialmente, os peritos constataram que o corpo de Rhuan estava sem o pênis. Ao ser questionada, Rosana detalhou que cortou o órgão do menino há cerca de dois anos, em Goiânia (GO), com a ajuda de Kacyla. De acordo com elas, o filho teria dito que “queria ser uma menina” e por isso fizeram o procedimento. Por causa da mutilação, as mulheres responderão por lesão corporal grave.

Além disso, Christopher Diego Martins, o médico-legista responsável pela análise do corpo de Rhuan, explicou que o corte do pênis do menino, feito em casa, causou diversas complicações, inclusive intensa dor ao urinar. “Por causa do procedimento, a uretra se retraiu. Ela se fechou, formando uma fistula até a derme. Por esse caminho, que é muito estreito, ele urinava. Isso é algo cruel e doloroso”, explicou. Para os investigadores, as complicações da mutilação são consideradas tortura, pois o menino ficou quase dois anos com o problema, sem ao menos ir a uma unidade de saúde.

Esquartejamento
Os peritos identificaram que, na noite do crime, em 31 de maio, Rosana e Kacyla esfaquearam Rhuan em mais de 10 partes e o decapitaram. Os investigadores não descartam a possibilidade de o menino estar vivo quando teve a cabeça arrancada. Em seguida, elas tiraram a pele do rosto dele e tentaram arrancar os olhos. Parte do corpo foi jogado em uma churrasqueira. A ideia era triturar os ossos com uma marreta, cozinhar o restante e descartar tudo em uma privada. Porém, a quantidade de fumaça fez as mulheres desistirem e distribuírem o corpo em duas mochilas e uma mala, descartada em um bueiro e encontrada por vizinhos, que acionaram a polícia, resultando na prisão das acusadas.
 
Como tentaram descartar o corpo, Kacyla e Rosana responderão por ocultação de cadáver. Após o crime, elas usaram água sanitária para limpar toda a cena, o que configura fraude processual, pela alteração do local que seria periciado “Esse foi um dos crimes mais horríveis que aconteceram no DF. Nossa ideia foi aprofundar as investigações para que elas cumprissem a maior pena possível. Por isso, encaminharemos o inquérito, mas as investigações continuam em andamento. Vamos apurar se elas não cometeram outros crimes”, frisou o delegado à frente do caso, Guilherme Sousa Melo.
 
Kacyla e Rosana estão presas na Penitenciária Feminina do DF, a Comeia. Por causa da repercussão do caso, a Justiça determinou que elas fiquem separadas das outras detentas, para não serem agredidas ou mortas. Além disso, de acordo com o delegado, as mulheres não têm permissão para interagir entre si e permanecem isoladas.

Fanatismo
Rhuan morava com a mãe, a madrasta, e a filha dela, de 8 anos, que presenciou a morte do irmão. As mulheres fugiram com os meninos do Rio Branco (AC) em 2014 e passaram por incontáveis cidades de diferentes estados, como Aracaju (SE), Goiânia (GO) e Palmas (TO). A ideia era despistar os pais das crianças, que tentavam a guarda delas na Justiça. O casal decidiu cometer o crime no dia em que descobriram o corte da pensão da irmã da vítima. Para as acusadas, o menino era um “empecilho” e a morte dele poderia significar um corte de gastos caseiros.

Além dessa possibilidade, ainda há outras duas teorias que possam ter motivado o assassinato. Uma delas é o fanatismo religioso das acusadas. Há uma semana, o delegado Guilherme foi ao Acre tentar traçar o perfil das investigadas. De acordo com o policial, elas teriam se conhecido ainda na escola e se reencontrado em uma igreja evangélica, onde começaram a namorar. “Testemunhas nos contaram que elas mudaram de comportamento por causa da religião e perseguiam os filhos, queimando roupas deles e dizendo que os itens eram do demônio”, ressaltou.
 
Na casa onde parte do corpo de Rhuan foi encontrado, em Samambaia, havia diversas passagens bíblicas coladas nas paredes, o que reforça o fanatismo religioso. “As atitudes delas independem de qualquer instituição religiosa. Nossa suspeita é de que elas tenham usado as próprias interpretações da Bíblia para cometer o crime”, explicou. Em Rio Branco, o investigador ainda destacou que Kacyla era conhecida por ter “revelações espirituais e sonhos proféticos”. Por isso, os policiais não descartam que isso possa ter motivado a morte do menino.
 
Outra teoria da Polícia Civil é de que Rosana teria cometido o crime por vingança. “Durante interrogatório, ela nos disse ser uma pessoa vingativa, que acreditava no Deus do Antigo Testamento, que era justiceiro e, por isso, não teria entregue o filho ao pai ou aos avós”, comentou o delegado. Segundo Guilherme, a morte de Rhuan talvez tenha sido para atingir o pai dele. “Ela disse que Rhuan teria sido concebido após um estupro. Porém, descartamos essa possibilidade”, afirmou.  No último domingo, em outro interrogatório, a mulher ressaltou sentir “ódio e nenhum amor” pela vítima.

Reaproximação
A filha de Kacyla carregou sequelas dos maus-tratos que recebeu durante a fuga com a mãe. Dois dias após o crime, o pai dela, o agente penitenciário Rodrigo Oliveira, veio de Rio Branco (AC) reencontrá-la após cinco anos de procura. Depois do crime, a menina foi levada a um abrigo de Taguatinga para passar por acompanhamento de conselheiros tutelares e psicólogos. Inicialmente, ela não conseguia ficar na presença masculina. A garota tinha sido ensinada a temer homens e por isso evitava o pai. No entanto, de acordo com o Conselho Tutelar, o quadro dela muda a cada dia.
 
“Agora, os encontros com o pai estão sendo bem positivos. Eles passam o dia todo juntos e o vínculo afetivo está sendo reconstruído”, informou a conselheira tutelar que acompanha o caso, Cláudia Regina Carvalho. De acordo com a profissional, pai e filha fizeram alguns passeios externos, mas ainda não há previsão para que a garota deixe o abrigo. “Estamos bastante esperançosos”, frisou.

Entenda o caso
Na noite de 31 de maio, Rosana e Kacyla apunhalaram Rhuan, esquartejaram o garoto e colocaram partes do corpo dele em duas mochilas e uma mala. Rosana caminhou cerca de 1km até encontrar um bueiro onde jogou os restos mortais do menino. O crime aconteceu em uma casa alugada pela família, em Samambaia. Um adolescente de bicicleta viu a cena, suspeitou e, com amigos, recuperou a mala e acionou a polícia. As duas foram presas em flagrante e confessaram o crime.


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