literatura Viúva diz que filmes não mostram como era conviver com Pablo Escobar

Por: FolhaPress - FolhaPress

Publicado em: 03/06/2019 08:17 Atualizado em:

Foto: Reprodução/TV Globo
Foto: Reprodução/TV Globo
Hoje ela se chama María Isabel Santos, tem 58 anos e se apresenta como "coach", a profissão que escolheu quando, ao chegar à Argentina, há 25 anos, teve de reinventar quase tudo em sua vida. Não apenas adotar um novo país de residência, como mudar de nome e de profissão e alterar a identidade dos dois filhos. Foi obrigada, também, a abandonar seu principal hobby, colecionar obras de arte, algo que ficou mais difícil depois que já não havia mais dinheiro para fazê-lo.

Porém, havia algo do qual não podia fugir nem deixar para trás: seu passado.

O nome verdadeiro de María Isabel Santos é Victoria Eugenia Henao. Esta senhora elegante que entrou no café do Malba (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires) para uma entrevista com a Folha, bem vestida e maquiada, casou-se, em Medellín, quando tinha 15 anos, com aquele que se transformaria no mais famoso narcotraficante do planeta: Pablo Escobar (1949-1993). E, mesmo depois de saber das atrocidades que o marido cometeu durante sua vida, ficou com ele até o último dia, quando foi morto pelas forças de segurança colombianas, ao tentar escapar por um telhado de um esconderijo, também em Medellín.

"Eu era uma garota comum que se apaixonou pelo vizinho da rua. Cresci na cultura 'paisa' (do Departamento de Antioquia, um dos mais conservadores da Colômbia) e apenas sonhava em encontrar o meu príncipe encantado e formar com ele uma família", diz ao justificar porque, mesmo depois de conhecer as atrocidades de que o homem que amava era capaz, nunca se separou dele.

Escobar foi o líder do Cartel de Medellín, que comandou o narcotráfico colombiano nos anos 1980, sempre rivalizando com o segundo mais poderoso, o de Cali, e colecionando inimigos: políticos, paramilitares, Exército e outros grupos criminosos. Em seu auge, o cartel de Medellín chegou a produzir 80% da cocaína consumida no mundo. Sua fortuna pessoal era estimada em US$ 30 bilhões.

Entre as atrocidades atribuídas ao grupo de Escobar estão os assassinatos do então ministro de Justiça, Rodrigo Lara Bonilla, em 1984, do candidato presidencial Luis Carlos Galán, em 1989, a derrubada de um avião da Avianca com mais de 100 vítimas fatais, além de bombas em centros comerciais e em jornais, sequestros e assassinatos.

Logo que a entrevista começa, porém, Victoria começa a tossir. Fica um pouco quieta e toma água. Pergunto se é uma gripe ou uma alergia, comuns no frio outono portenho. "Não, não, sabe o que é?", diz ela, "eu fiquei praticamente sem dizer nada por 25 anos. Depois que Pablo morreu, eu achava que alguém que tinha vivido o que eu vivi e que carregava a herança de ser a viúva de Pablo Escobar deveria escolher o anonimato e o silêncio. Pensei em morrer sem dizer mais nenhuma palavra sobre o que ocorreu comigo. Mas agora que comecei a contar minha história, meu corpo está respondendo."

Victoria lança no Brasil "Sra. Escobar - Minha Vida Com Pablo", e, junto com o livro, surgem os convites para entrevistas, palestras, algo a que não estava acostumada.

Ao longo da leitura do livro e da conversa com a Victoria, fica difícil separar o quanto ela se sente uma vítima mais de Escobar e quanto foi, na verdade, sua cúmplice.

Ela atribui sua fidelidade inabalável ao marido na época à cultura e à educação que teve, "cresci num ambiente muito machista, em que uma mulher não questionava o marido. Eu lia nos jornais sobre os crimes, diziam que ele era o culpado, mas ele sempre negava tudo", diz.

Victoria divide o tempo que passou com ele em duas partes. "Houve um primeiro momento em que via Pablo identificado com a questão social, porque suas raízes eram muito humildes e isso o revoltava, o movia. Ele queria melhorar a vida das pessoas, fazer com que tivessem boas casas e não mais morassem em favelas, foi por esse líder social que me apaixonei."

Depois de casada, ela conta que começou a ver Escobar metido num ambiente de pessoas ricas, de políticos, e ainda assim ela não entendia que havia algo errado. "Para mim, ele era alguém que trabalhava no mercado imobiliário, tinha sucesso e que estava em boa situação financeira por isso."

Conta que a segunda fase começou com o assassinato de Lara Bonilla, o ministro de Justiça que começou a apontar o dedo para os responsáveis pelo narcotráfico na Colômbia. Mesmo com Escobar negando que houvesse mandado matá-lo, ela reconhece que começou a desconfiar do marido. Mas, diz, já era tarde, ela estava com oito meses de gravidez, acostumada a uma vida de conforto e com uma casa que ele havia enchido de obras de arte para ela. "Eu percebia a contradição, mas o máximo que perguntava era: se está tudo bem e você é inocente, por que nós temos de nos esconder o tempo todo?"

O filho mais velho do casal, Juan Pablo, há alguns anos começou a escrever livros e dar palestras sobre o pai. A família veio para a Argentina depois de ser expulsa da Colômbia pelos inimigos de Escobar, que ainda assim ficaram com boa parte de seu dinheiro e com as obras de Victoria. "Foi meu filho que me estimulou a escrever, para que o mundo ouça minha voz, especialmente agora que aparecem séries e filmes que não sabem bem como era conviver com ele."

Victoria não diz que se acha uma vítima de Escobar, mas é o que se lê em suas entrelinhas. Afirma que tem "estresse pós-traumático". Por outro lado, disse também que escreveu o livro "para pedir desculpas pelo que ele fez, para que não existam mais Pablos Escobares no mundo". Logo depois de dizer isso, começa a descrever como o amava, e como até hoje sente-se intrigada em por que ele nunca a abandonou e por que condenou a ela e aos filhos de ambos de viverem com essa pesada herança.

"Eu me pergunto onde foi parar esse amor que ele disse que sentia, o que era esse amor?", pergunta, com os olhos cheios de lágrimas e interrompendo a entrevista.

Para entendê-lo melhor, diz que começou a estudar a mente dos psicopatas, por meio de leituras científicas, ao mesmo tempo em que "conversa" com Pablo sempre, ainda perguntando a ele sobre seus atos.

Tanto ela como seu filho, Juan Pablo, dizem não viver do dinheiro que ele deixou, pois todo ele foi entregue aos inimigos da família. "Outra razão pela qual escrevi o livro foi porque queria ajudar meus filhos, minha nora e meu neto. Eles não escolheram ser parentes de Escobar. Eu sim, então, se têm de culpar a alguém, que seja a mim, embora, como eu disse, eu era muito jovem para entender tudo o que me aconteceu."

SRA. ESCOBAR - MINHA VIDA COM PABLO
Preço: R$ 41,82 (368 págs.)
Autor: Victoria Eugenia Henao, com tradução de Sandra Martha Dolinsky
Editora: Planeta


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