Música João Afojubá, pernambucano que difundiu o maracatu na Alemanha, precisa de ajuda Músico foi diagnosticado com câncer raro. Festival de música em Olinda e financiamento coletivo arrecadam fundos para o tratamento estimado em 72 mil euros

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 18/05/2019 18:22 Atualizado em:

Foto: O Som da Cura/Divulgação
Foto: O Som da Cura/Divulgação
João Alencar Rego, criado no Beco dos Casados, em Santo Amaro, encantou-se pelas batidas do maracatu ainda na infância e se aprofundou na cultura popular com incentivo da ONG Pró-Criança. Ao alcançar a maioridade, naturalmente foi se tornando uma referência para os mais jovens da comunidade. Seu espírito de liderança resultou na fundação do Maracatu Afojubá (que significa “presença”, no idioma yorubá), que chegou a reunir multidões no Bairro do Recife em 2005. “Os alunos começaram a se interessar e viver disso, justamente numa época em que o consumo de crack estava crescendo na comunidade. Foi algo que me deu muita autoestima. Vi o maracatu como instrumento de mudança”, conta o recifense de 33 anos, em entrevista por telefone ao Viver.

Em 2011, ele decidiu deixar o Recife para alcançar sonhos ainda enquanto profissional de música: expandir o coletivo no exterior. Berlim acabou sendo o destino. Quase uma década passou e, mesmo com adversidades, ele cumpriu o objetivo. O Afojubá Berlin conta com mais de 40 integrantes de diversas nacionalidades, também conquistando espaço em casas de shows e boates da capital da Alemanha. João também desenvolveu trabalhos formativos com crianças com necessidades especiais, lecionando em escolas como Waldorf Anne Rose Schule e Johannes Schule.


Todas as atividades profissionais foram interrompidas em dezembro de 2018 devido a um imprevisto. João foi diagnosticado com um câncer raro, que atingiu seu reto, um músculo do reto e uma veia da região. A doença se tornou um obstáculo extenso não apenas pela sua complexidade, mas pelo valor do tratamento: 72 mil euros. É por isso que amigos, familiares, produtores culturais e artistas de Pernambuco se uniram para colaborar com a causa no evento O Som da Cura, realizado neste domingo, a partir das 16h, no Sana Beer Pub (Rua Treze de Maio, 99, Carmo). A entrada custa R$ 30.

Foto: O Som da Cura/Divulgação
Foto: O Som da Cura/Divulgação
O evento tornou uma espécie de festival de ritmos populares como coco, afoxé, percussão, música instrumental e forró. Maciel Salú, Afoxé Omô Nilê Ogunjá, Coco de Toré Pandeiro do Mestre, Casas Populares da BR 232, Banda Mandala, Samuel Negão, Gilú Amaral e Cláudio Rabeca são alguns dos artistas na programação. Também haverá a pré-estreia do curta-metragem Afojubá, dirigido e produzido pelo pernambucano Alexandre Salomão. O cineasta fez o filme durante uma estadia de três anos (2015, 2016 e 2017) em Berlim para acompanhar a jornada de João. 

Além do show, está sendo realizado um financiamento coletivo para custear o tratamento de radioterapia e quimioterapia do percussionista (para doar, clique aqui). O objetivo é chegar aos R$ 20 mil - foram arrecadados cerca de R$ 4 mil até o momento. O dinheiro servirá também para manter os seus projetos e o estúdio que abriga as aulas de vários parceiros brasileiros dentro da casa do Afojubá Berlin.

NA ALEMANHA
O Afojubá Berlin hoje é um dos principais coletivos de maracatu da capital alemã, ao lado do Baque Forte Berlin, Grupo Marafoxé e Maracatu Treffen - alguns deles também aparecem no filme de Alexandre Salomão, feito de forma independente e com finalização da produtora pernambucana SOUND8. “Quando cheguei lá, os grupos de maracatu só tocavam em espaço fechados, mais como uma terapia. Não usavam as ruas, nem faziam festas”, conta João. “Mas eu queria tocar nos clubes, que nem o filho de Fela Kuti. Quando criei contatos suficientes, começamos a produzir nossa própria festa, com noites de maracatu”, completa o músico, que subiu em palcos de festivais como o Afro-Brazilian Percussion.


A visibilidade do Afojubá permitiu que o pernambucano também pudesse atuar nas escolas, trazendo o gênero musical de forma terapêutica e formativa. “Tive uma grande dificuldade por não ser acadêmico. Aqui, quando você não é um acadêmico e ainda mais estrangeiro, colocam você menos que no chão. O alemão é superinteligente, mas não tem um ritmo similar ao nosso. E acho que foi isso que acabou conquistando.” Sobre o movimento para arrecadar fundos, já foi realizada uma festa em Berlim, embolsando 4 mil euros com a presença de 700 pessoas. No Brasil, a iniciativa veio de Nilton Júnior, do Coco de Toré Pandeiro do Mestre, e Salomão.


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