TV O Mecanismo estreia segunda temporada na Netflix com a caçada contra políticos e empreiteiros Criticada pelo discurso antipetista na primeira temporada, a sequência da produção dirigida por José Padilha mostra que a corrupção vai muito além do PT e dos políticos

Por: Rodolfo Bourbon

Publicado em: 10/05/2019 14:42 Atualizado em: 10/05/2019 15:25

Marco Ruffo (Selton Mello) e os seus baralhos para desvendar a canastra suja da corrupção no país. Foto: Netflix/Divulgação
Marco Ruffo (Selton Mello) e os seus baralhos para desvendar a canastra suja da corrupção no país. Foto: Netflix/Divulgação

- Esse áudio é tudo que a gente precisava para ter a população do nosso lado. - brada Cláudio.
- Metade da população. O país está dividido. - rebate Verena.
- Quem derrubar o Gino vira herói.
- Usar esse grampo é agir politicamente.
- Se esconder em cargo público é agir politicamente.
- Eles são políticos, Cláudio. Nós, não.

O diálogo entre a delegada da Polícia Federal e o procurador do Ministério Público sobre o grampo ilegal da conversa entre Gino (personagem alusivo a Lula) e Janete (Dilma), no último episódio da segunda temporada de O mecanismo, contrasta com o tom da temporada inaugural. A primeira parte da série da Netflix, dirigida por José Padilha e livremente inspirada em eventos reais da Operação Lava-Jato, foi muito contestada por corroborar com o discurso antipetista às vésperas da última eleição presidencial. Já a sequência da produção, com os oito capítulos disponíveis a partir de hoje no serviço de streaming, dilui mais a crítica e a responsabilidade pelos meandros da corrupção no Brasil. Mea culpa? Para Padilha, não. “É a cronologia. Até certo momento, só estavam prendendo gente do PT. Depois, mudou, pegaram de outros partidos. A história é assim”, justifica o diretor.

Logo nos primeiros minutos da nova temporada, outra cena chama a atenção: se na primeira a emblemática frase “estancar a sangria” é dita por Gino, na segunda ela está na boca do senador Lúcio Lemes (ou Aécio Neves) - na vida real, no entanto, foi o então senador Romero Jucá (PMDB) quem sugeriu o “grande acordo nacional com o STF, com tudo” para barrar as investigações. Penha (Eduardo Cunha), Thames (Temer) e um ministro do STF, Maximiliano da Fonseca (seria Gilmar Mendes? O diretor nega), também aparecem como articuladores do impeachment-golpe e com ares maquiavélicos.

O agente Marco Ruffo, interpretado por Selton Mello, continua sendo o cérebro para desvendar o mecanismo da corrupção. Para tanto, vale-se de vários baralhos, onde rabisca quem é o “rei” de cada naipe da “canastra suja”. Enquanto ele monta a estratégia para desvendar as engrenagens e, claro, mantém perseguição ao seu eterno “calo” Roberto Ibrahim (Enrique Díaz, no papel associado ao doleiro Alberto Youssef), a delegada Verena Cardoni (Caroline Abras), os agentes Guilhome (Osvaldo Mil) e Vander (Jonathan Haagensen) armam a caçada. Na segunda temporada, os alvos mais em cena são os empreiteiros, membros do esquema fraudulento chamado “Clube dos 13”, reunindo as maiores construtoras do país. Se os de 12 companhias são relativamente fáceis de pegar, o mesmo não se pode dizer de Ricardo Brecht (Marcelo Odebrecht), interpretado de forma contundente pelo ator Emílio Orciollo Netto. 

No Poder Judiciário, Paulo Rigo (o juiz Sérgio Moro), Dimas e Claudio (os procuradores do MPF Deltan Dallagnol e Carlos Fernando dos Santos Lima, respectivamente) aparecem de forma um pouco menos “paladina” na segunda temporada. Moro, inclusive, tem sido dura e publicamente criticado por Padilha. Por sinal, Rigo estava presente na conversa do início deste texto. E se calou. 

Se gritar pega ladrão, não fica um

Trama mostra a batalha para prender Ricardo Brecht, a chave para chegar a "Brasília". Foto: Karima Shehata/Netflix
Trama mostra a batalha para prender Ricardo Brecht, a chave para chegar a "Brasília". Foto: Karima Shehata/Netflix

A vinheta de abertura da sequência de O mecanismo soa clichê, mas encaixa: Reunião de bacana, do popular refrão Se gritar pega ladrão / Não fica um, meu irmão cantado por Bezerra da Silva. A música tinha sido pensada já para a primeira temporada, mas houve certo receio de processo. Agora, com muitos dos retratados na cadeia, a única cautela foi evitar mostrar algum político ainda solto no trecho citado acima. Uma curiosidade: Michel Temer é o único sem tarja nos olhos, diferentemente de todos os outros. “O Temer tem olhos lindos”, brincou José Padilha. O timing foi preciso: o ex-presidente voltou a ser preso ontem.

Outro tiro certeiro da série é em relação ao atual presidente. Segundo Padilha, a segunda temporada foi escrita antes do resultado nas urnas. Coincidência (ou não), durante o discurso do personagem atribuído a Jair Bolsonaro na votação do impeachment de Janete (Dilma), o texto narrado por Marco Ruffo diz o seguinte: “A opção do PT matou a esquerda. E com a direita fisiológica e desonesta entrando na mira da Lava-Jato, formou-se um vazio bem perigoso. Um vazio que poderia ser preenchido pelas forças repressivas de um passado não muito distante”. São exemplos de como O mecanismo tende a ser mais “palatável” agora para a esquerda, embora, pelo histórico polêmico e pelo tema “espinhoso”, seja sempre vidraça para repercussão calorosa nas redes sociais.  

“Na temporada 2, muitas coisas se esclarecem. Ela apresenta o outro lado, muita gente vai poder ver um ponto de vista diferente”, diz Enrique Díaz, o Ibrahim. “A nova temporada apresenta o outro lado, mas não tira a marca que a primeira temporada resolveu assumir, de corroborar com discurso antipetista, num momento decisivo. Essa marca não sai”, completa.

Apesar da ligação com a realidade, a série tem ficção suficiente para prender mesmo o telespectador alheio ou aborrecido com noticiário político. Tiros, romances, brigas, reviravoltas. Afinal, política também tem dessas coisas... 

Guilhome, Verena, Roberval e Vander: o núcleo da PF. Foto: Karima Shehata/Netflix
Guilhome, Verena, Roberval e Vander: o núcleo da PF. Foto: Karima Shehata/Netflix

QUEM É QUEM?

POLICIAIS
Marco Ruffo (agente): Gerson Machado
Verena Cardoni (delegada): Erika Marena 
Luis Carlos Guilhome (agente): Márcio Anselmo
Roberval (superintendente da PF): Rosalvo Ferreira Franco 

PODER JUDICIÁRIO
Paulo Rigo (juiz): Sérgio Moro
Dimas (procurador do MPF): Deltan Dallagnol 
Claudio (procurador do MPF): Carlos Fernando dos Santos Lima 

POLÍTICOS
Janete Ruscov (presidenta): Dilma Rousseff
Samuel Thames (vice-presidente): Michel Temer
Lúcio Lemes (senador): Aécio Neves
Penha (presidente da Câmara): Eduardo Cunha
João Higino (ex-presidente): Lula

OUTROS
Roberto Ibrahim (doleiro): Alberto Youssef
João Pedro Rangel (ex-diretor da Petrobrasil): Paulo Roberto Costa
Ricardo Brecht (dono da Miller & Brecht): Marcelo Odebrecht
Maria Teresa Assunção (secretária de Ricardo): Maria Lúcia Tavares
Tom Carvalho (presidente da OSA): Léo Pinheiro

MAIS "GLOSSÁRIO"
Polícia Federativa: Polícia Federal
MFP: Ministério Público Federal (MPF)
Procuradoria Geral Republicana: Procuradoria Geral da República (PGR)
Petrobrasil: Petrobras
Revista Leia: Revista Veja
Miller & Brecht: Odebrecht (construtora)
OSA: OAS (construtora)

O repórter viajou a convite da Netflix



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