ENTREVISTA Cantor Lô Borges fala ao Viver sobre seu novo álbum, Rio da Lua

Por: Patrícia Monteiro

Publicado em: 06/05/2019 14:54 Atualizado em: 06/05/2019 19:01

Músico lançou disco de inéditas após hiato de oito anos. Crédito: João Diniz
Músico lançou disco de inéditas após hiato de oito anos. Crédito: João Diniz

No início dos anos 60, um menino de 10 anos dedilhava um violão e despertava a atenção daquele que se tornaria um dos maiores mitos da música brasileira: Milton Nascimento. A diferença de idade não impediria que o futuro os encontrasse parceiros na elaboração de um dos álbuns da discografia nacional mais bem avaliados pela crítica e admirados pelo público: o icônico Clube da Esquina, de 1972. Álbum que se tornaria movimento e representante-mor da dita música mineira. E que alçaria o então adolescente Lô Borges ao patamar de um dos grandes da MPB. Depois de um hiato de oito anos sem lançar canções inéditas, Lô apresenta O Rio da Lua, pela gravadora Deck, com dez músicas compostas por ele e um parceiro que é novo e antigo ao mesmo tempo: Nelson Angelo, antigo integrante do Clube da Esquina, mas com quem ele nunca havia composto. Em virtude do lançamento do álbum, Lô Borges conversou com o Viver sobre o novo projeto, desafios, situação do país e relacionamento com a capital pernambucana. 

Qual sua relação com Recife e Pernambuco? 
Já fui algumas vezes ao Estado e em todas elas fico muito feliz pois recebo uma recepção bastante calorosa e bacana do público. Gosto de ir ao Recife e, infelizmente, vou muitos menos do que gostaria.

Você é co-autor, junto com Milton Nascimento, do disco Clube da Esquina, de 1972. Ou seja, quando ainda tinha 20 anos de idade. A que credita a maturidade musical tão inata e prematura, como relata seu irmão, Márcio Borges, no livro Os Sonhos Não Envelhecem, de 1996?
Acho que é algo sem muita explicação. Um dom com o qual se nasce. Além disso, cresci no ambiente musical, de muitos irmãos mais velhos. Meu pai e minha mãe gostavam muito de música, ouviam rádio e tudo o que era sucesso na época: de Luiz Gonzaga a Cauby Peixoto, passando por Ângela Maria e Dorival Caymmi. Quando eu tinha 10 a 11 anos, entretanto, meus irmãos começaram a ouvir Chega de Saudade, de João Gilberto. Este disco me incitou a tocar violão. Costumo dizer que comecei da forma mais difícil, com músicas muito elaboradas harmonicamente. No mesmo ano, houve uma euforia com o surgimento dos Beatles no mundo inteiro e em Belo Horizonte não foi diferente. Assisti no cinema, com 10 ou 12 anos, o filme A Hards Days Night e, dali para a frente, tornei-me beatlemaniaco. Tocava todas as músicas do longa e, quando lia a notícia que iria sair disco novo, corria para as portas das lojas, como fizeram garotos do mundo inteiro. Além disso, aos 12, passei a integrar a banda cover The Bravers, os Castores, juntamente com artistas como Beto Guedes.

Quais as principais mudanças que enxerga no panorama musical do país de lá para cá? Quais as influências e legados que o Clube da Esquina trouxe para a música, de maneira geral? Estes ecos ainda reverberam? 
A música brasileira é muito rica e diversa, cada região traz um aspecto ou um acento diferente. O Clube da Esquina foi dividido com o Milton Nascimento, mas produzido de maneira coletiva, com a participação de vários outros músicos importantes - inclusive do Nelson Angelo, meu parceiro no "Rio da Lua", que foi fundamental na gravação do "Clube". Algo que trouxe essa mescla de sonoridades das raízes africanas e do jazz (Milton) com o rock psicodélico e dos Beatles que eu imprimi. Isso fez deste álbum algo especial e notável, nesse sentido, e que tocou as pessoas, não só no Brasil, mas em vários outros países. Isto reverbera até hoje, o que mostra a atemporalidade desse disco. 

O que pensa da música que se faz no Brasil atualmente? Quem admira e escuta?
O Brasil continua produzindo boa música, e nem sempre o que está na mídia é o mais bacana. Tem muita gente boa, espalhada neste país continental, fazendo coisas muito legais. Eu viajo muito para fazer shows e nos meus camarins sempre recebo material de artistas locais, e vários deles com trabalhos bem interessantes.

O cantor Otto gravou uma canção em que afirmava que “tem sempre um lado que pesa e outro que flutua”. Em que pesou ou flutuou tanta precocidade musical ao longo da vida e carreira? 
Eu fiquei um pouco assustado. Antes do Clube da Esquina, compus três músicas para o álbum de Milton, de 1970. Uma delas, Para Lennon e McCartney, com letra de Fernando Brandt e Márcio Borges. Quando, entretanto, Milton me convidou para ir ao Rio fazer as músicas do Clube, morando com ele um tempo, estava me preparando para prestar vestibular em algum curso, que não lembro, da área de humanas. Minha mãe não queria que eu fosse morar no Rio por causa da ditadura que perseguia as pessoas. Ela achava que poderíamos ser incomodados pela polícia, como realmente fomos, muitas vezes. Então, o empresário do Milton, na época, arrumou uma casa de praia depois de Niterói, a 30km do rio Piratininga, onde ficamos durante um ano. Ali pude compor, de maneira muito mais relaxada, as nove músicas que assino do álgum. E aconteceu que a gravadora gostou do resultado do Clube embora, a princípio, tenha se negado a gravar um disco de Milton com um garoto desconhecido chamado Lô Borges. Satisfeita, ao final, quiseram que eu gravasse um novo disco solo. Venho o “Disco do Tênis” (sem nome, chamado desta forma devido à imagem que o ilustrava) diferente tanto no conceito quanto no forma porque compus muito loucamente, sob pressão, já que eles queriam que saísse no mesmo ano que o Clube. Para você ter uma ideia, quando acordava pela manhã, do zero, fazia a música. À tarde, a letra. À noite, gravava. Ou seja, uma canção que não existia pela manhã, à noite já estava gravada e pronta. Quando terminou este processo, eu, ainda novo, queria viver as coisas da minha geração. Não estava preparado para fazer música por obrigação. Então, me afastei do Rio de Janeiro, fui ser ser hippie em Arembepe, na Bahia, fiquei até com fama de maluco. Fui viver a minha vida até para me estruturar mais como compositor. Uma sábia decisão que tomei aos 20 anos para me estruturar como pessoa, ser humano, compositor. Estava meio sufocado com o show bussiness, com a perspectiva de outro disco a ser lançado dali a um ano, com a imprensa na minha casa. Tudo muito diferente para alguém que não tinha nem sonhado com minha carreira. Somente depois de sete anos, voltei a compor e lancei o álbum Via Láctea.

Há, dentre todas as músicas deste período, alguma preferida?
É muito difícil escolher, pois fizemos muitas canções, cada uma com seu valor, história e momento. Então, é difícil pinçar uma. É meio chavão dizer isto mas elas são, na verdade, como filhos.

Seu novo álbum, Rio da Lua, é feito em parceria com um antigo companheiro do Clube da Esquina, o Nelson Angelo, que escreveu as letras. É correto dizer que há um certo otimismo na maioria delas? 
Nunca fui um grande otimista, nem pessimista. Eu canto minha vida, o que vivo. Na verdade, os textos são do Nelson, eu os musiquei. Se há menção a boas novas, acho que são para a celebração da nossa parceria. Ele me mandava textos otimistas e eu os musicava. Acho que cada um faz uma leitura de mundo que traga coisas que o faça absorvê-lo de uma maneira melhor. Que a gente vive numa merda, não preciso falar, tudo mundo sabe. O país é muito complicado, injusto, com desemprego, problemas como os que aconteceram em Mariana e Brumadinho. Enfim, vivemos em um caos.Não sou alienado, não estou achando que está tudo certo. Está mais para errado, na verdade, mas acho que não posso contaminar minha música com isto. É quase uma coisa individualista, trago um respiro para os outros, mas também para mim. Não quero viver sufocado. Faço música para isto. Para contrapor este lado a tanta coisa ruim vista onde todo mundo vive querendo “comer o fígado” do outro, onde há muito exibicionismo e culto ao ego nas redes sociais, por exemplo. O mundo está mudando bastante e muito rapidamente. Então, acho que a melhor coisa que faço é a que estou fazendo. Compondo, me abstraio da um pouco da realidade deste mundo em que vivo.

Na faixa "Inusitada", há a pergunta "quem sou eu, um lavrador de caminhos?" Você se enxerga desta forma? Caso sim, quais caminhos?
Quem escreveu esse verso da letra de "Inusitada" foi o Nelson Angelo, e eu assino embaixo! Aliás, todas as letras do "Rio da Lua" são do Nelson, e elas me inspiraram a compor as melodias e harmonias, o que resultou no álbum. 

Por que a escolha de Rio da Lua como faixa- título?
Porque gosto muito da letra que o Nelson Angelo escreveu, sugerindo uma viagem rumo ao desconhecido. Depois de gravada, achei essa música vibrante e interessante para abrir e intitular o disco.

Nelson encaminhava as letras por e-mail, primeiramente, e por whatsapp, depois. Você colocava música em letras já existentes, algo inédito na sua carreira. Como foi este processo?
Algo que eu nunca havia feito em quatro décadas de carreira. Começou com a primeira que ele me enviou, Partimos. Achei tão gostoso, legal e criativo que fiz 10 (risos). Eu pegava o telefone, copiava a letra no caderno, sentava, pegava o violão e fazia a música em 40 minutos. Todas foram compostas em menos de uma hora. Meio que como já existissem.

Há quanto tempo não fazia um disco inédito?
Meu último foi em 2011. Estava com saudades. Não fiz antes, entretanto, porque estive viajando muito. Fiz DVD com Samuel Rosa, turnê com ele, com Milton, além de turnê do Disco do Tênis, que nunca havia feito. Este é o meu quinto disco de inéditas. No século XXI, fiz mais de 60 composições.

E agora? Quais os próximos desafios?
Este ano, por contrato, tenho mais de 20 shows para os próximos três meses. Preciso me preparar para eles e, quem sabe, no ano que vem, faço algo relacionado aos 40 anos de Via Láctea. Meu público tem me cobrado em relação a isto. Pode ser também, que em um futuro próximo, faça algo novo. Sou muito a fim de música inédita, gosto de viajar muito rumo ao desconhecido.

Falando da mistura entre passado, presente e futuro, decorridos 40 anos, quem regravou Vento de Maio, um dos seus grandes sucessos, foram os cantores Maria Rita e Seu Jorge. A música deverá ser lançada no segundo semestre deste ano. Já ouviu? O que achou do resultado? 
Seu Jorge me mostrou o disco. Achei super bonito, fiquei bastante emocionado.

Para finalizar, o que há de mais mineiro na música de Lô Borges?
Não sei.. talvez o fato de ainda morar em Belo Horizonte até hoje. Respiro meio esse clima das montanhas, das coisas de Minas. Como mineiro, sou um cara concentrado e gosto de transformar minha concentração em algo que possa fazer bem pra mim e para as outras pessoas. Independentemente do local onde nasci, tenho esta concentração, mas mineiro é mais concentrado. Embora hospitaleiro, não é tão extrovertido. Sou assim, um cara um pouco mais para dentro, costuma fazer mergulhos mais interiores.



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