Literatura Primeiro livro em prosa escrito em Pernambuco ganha edição definitiva Diálogo das Grandezas do Brasil, obra fundamental para entender o período colonial, é relançado pela Cepe

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 23/04/2019 09:04 Atualizado em: 25/04/2019 16:01

Ibra consiste numa conversa entre indivíduos que viveram nos primórdios da colônia. Foto: Cepe/Divulgação
Ibra consiste numa conversa entre indivíduos que viveram nos primórdios da colônia. Foto: Cepe/Divulgação
O primeiro livro em prosa escrito em Pernambuco e sexto a nível nacional ganha uma nova edição pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), com lançamento nesta terça-feira (23), no Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico (Rua do Hospício, 130, Boa Vista), às 19h. Tendo completado 400 anos recentemente, Diálogo das grandezas do Brasil foi elaborado em 1618 por um autor anônimo. Atualmente, historiadores creditam a obra a Ambrósio Fernandes Brandão, senhor de engenho que realizou um rico apanhado de aspectos econômicos, sociais, da fauna, flora e dos sistemas jurídico e sociológico do Brasil Colônia. O relançamento, com 447 páginas, foi transcrito pelo pernambucano Caesar Sobreira, professor de Antropologia da UFRPE, que adicionou centenas de notas de rodapé, resultando na primeira versão diplomático-interpretativa.

Diálogo das grandezas do Brasil consiste numa conversa entre indivíduos que viveram nos primórdios da colônia, assim como as famosas cartas de Pero Vaz de Caminha. Na obra, os personagens são Alviano e Brandônio. O primeiro é recém-chegado nos trópicos e insiste em comparar as terras brasileiras com a metrópole portuguesa, sempre diminuindo a colônia para exaltar a coroa. Já o segundo vive nas terras tupiniquins há tempos e rebate, ressaltando belezas, qualidades, capacidade de exploração e possibilidades. Foi através desse choque cultural de cosmovisão lusitana que Ambrósio elaborou um importante documento para a história nacional, sobretudo do Nordeste brasileiro.

O manuscrito original desapareceu num incêndio em Olinda no período da ocupação holandesa em Pernambuco. Atualmente, só existem dois apógrafos (reprodução do manuscrito) da obra: um na Biblioteca Real de Leiden, na Holanda, outro na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa. No Brasil, dez edições já foram publicadas, com destaque para a primeira, de 1930 (ABL, de Capistrano de Abreu), e a quarta, de 1962 (UFPE, por José Antônio Gonsalves de Mello). Todas, no entanto, são baseadas no apógrafo da Holanda.

Caesar Sobreira, professor de Antropologia da UFRPE. Foto: Cepe/Divulgação
Caesar Sobreira, professor de Antropologia da UFRPE. Foto: Cepe/Divulgação
"O lançamento de agora traz um manuscrito inédito, que ficou esquecido e desprezado na Biblioteca de Lisboa, fato que sempre chamou minha atenção", diz Caesar Sobreira, em entrevista ao Viver. "Em 2011, iniciei pós-doutorado de Linguística, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Portugal. Pensei que deveria jogar luz em um assunto interessante a Pernambuco e Portugal, acabei chegando em Diálogo das grandezas do Brasil. Analisei o manuscrito baseado nos critérios científicos da crítica textual, uma subárea da linguística, comparando cada uma das dez edições já publicadas e apontando imperfeições em cada uma delas".

O transcritor diz que todas as edições anteriores foram elaboradas por historiadores que não conheciam a crítica textual, prática que consiste em aproximar o texto o máximo possível da sua forma originária por meio de minuciosas regras de hermenêutica e exegese, a fim de estabelecer uma edição definitiva. “O lançamento de agora é diferente por corrigir e preencher lacunas. Eu varri as dez edições, inclusive as fragmentadas de jornais, para fazer uma atualização ortográfica sem interferir no texto. As contradições existentes entre as edições são apontadas em notas de rodapé, dando ao leitor a chance de cortejar o trabalho como um conjunto".

A obra também é justalinear, pois cada linha do texto digitado corresponde ao texto manuscrito - trabalho também chamado de transcrição paleográfica. "Isso confere ao leitor a liberdade de fazer sua própria interpretação e julgar o responsável pela construção da interação. É uma edição que amplia possibilidades. Novos historiadores que se interessarem pelo Brasil colonial terão uma nova referência", conclui.


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