Literatura Fotobiografia elaborada por pernambucano faz relato iconográfico de Chico Buarque

Por: Patrícia Monteiro

Publicado em: 22/04/2019 15:23 Atualizado em:

Os olhos azuis de Chico já eram penetrantes desde os 20 e poucos anos, como mostra esse registro de 1968. Foto: Adhemar Veneziano/Divulgação
Os olhos azuis de Chico já eram penetrantes desde os 20 e poucos anos, como mostra esse registro de 1968. Foto: Adhemar Veneziano/Divulgação
Um rosto que faz parte do imaginário coletivo dos brasileiros. Cantor, compositor, músico e poeta, Chico Buarque é ícone e representação da música popular brasileira. Imagem que inspirou o pernambucano Augusto Lins Soares a buscar algum ineditismo na forma de contar a sua história: em forma de fotobiografia. O resultado saiu há pouco, em março. Revela-te, Chico: Uma fotobiografia, da editora carioca Bem-Me-Quer, é primeira obra do gênero sobre Chico lançada no país. 

As 240 páginas contêm 210 registros selecionados entre mais de 20 mil imagens pesquisadas em variadas fontes, principalmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Esse último estado, notadamente na parte mais inicial da infância e adolescência, por meio de instituições como Instituto Antônio Carlos Jobim, Funarte, Museu da Imagem e do Som, Instituto Moreira Salles, além de acervos de fotógrafos cariocas. O material foi captado também em outros estados como Minas Gerais, Pernambuco - a foto do Chico com dom Hélder é do Instituto Dom Hélder Câmara - e Bahia. 

De lá, por exemplo, vem duas fotos de Arlete Soares, referentes ao propagado show de Chico com Caetano em Salvador, no final do ano de 1973, e que resultou em disco. “Busquei muita coisa em outros eixos também, porque queria justamente ver esse Chico mais nacional, plural”, conta Augusto, ao Viver. O autor ainda conversou bastante com a cantora Miúcha Buarque de Holanda, irmã de Chico, falecida aos 81 anos em dezembro do ano passado, e com a outra irmã do artista, Maria do Carmo, a Piii, que mora em Olinda desde os anos 1980 e lhe forneceu imagens. A elaboração do projeto teve início no final de 2016. O licenciamento foi no início de 2017.

Foto tirada em 1969, em Roma. Foto: Cristiano Mascaro/Divulgação
Foto tirada em 1969, em Roma. Foto: Cristiano Mascaro/Divulgação
A seleção entre tantas imagens não foi uma dificuldade para Augusto. “Na verdade, quando você tem uma ideia bem elaborada ou sabe exatamente qual é o tom visual que quer dar ao projeto, e isto vai se firmando ao longo da pesquisa, já fica mais fácil descartar imediatamente o que não interessa”, explica. Entre os critérios de escolha, estiveram valor histórico na cronologia do artista, qualidade estética e plástica da imagem e créditos de autores consagrados no mundo da fotografia. 

"Isso agrega valor, pois um profissional experiente tem toda uma lógica e sentido de composição, de luz. Além disso, tem a questão da nossa memória afetiva. Para mim, Chico é um dos grandes ícones da cultura brasileira e que se mantém firme e forte, produzindo. Por isso, ele. E também porque queria um personagem forte e sobre quem eu tivesse conhecimento de que já existia um acervo iconográfico grande", relata.

As imagens estão dispostas como uma linha do tempo. Começam com um bloco de retratos fotográficos dispostos cronologicamente. A seguir, momentos variados da vida pessoal e carreira, finalizando com imagens atuais, como a participação num ato em homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada no Rio no ano passado; no videoclipe de Manifestação, música interpretada por vários artistas, lançada em 2018 em defesa aos direitos humanos; e o momento em que recebeu, de um grupo de bordadeiras de Belo Horizonte, uma colcha de retalhos com 100 quadradinhos, cada um deles costurado como uma homenagem a uma música.

Chico e Clementina de Jesus no festival Show do Paraíso, espécie de Woodstock tupiniquim, em 1977. Foto: Ayrton Camargo/Divulgação
Chico e Clementina de Jesus no festival Show do Paraíso, espécie de Woodstock tupiniquim, em 1977. Foto: Ayrton Camargo/Divulgação
Essa etapa termina com a capa do último álbum de Chico, Caravanas. Finalizando, retratos em arte do cantor feitos por 22 artistas plásticos, com breves descrições. “Chico é muito coerente com sua história, atuando nas artes, politicamente, socialmente. Sempre participou de projetos e ações sociais. Então, ao longo do livro, é possível encontrá-lo muitas vezes nessas situações.”

Entre os muitos registros, Augusto destaca a imagem de um ensaio feito pelo fotógrafo David Drusing para a revista Realidade. Faz parte de um ensaio com vários artistas apontados como a nova safra do samba. “A que todo mundo conhece, a que saiu na capa, é a que traz Chico, Nara Leão, Caetano e outros artistas. A que consegui é uma sobra do ensaio e que traz Elis Regina. Como a ideia era justamente conferir novidade e ineditismo ao livro, escolhi essa e a acho fantástica”, conta. Outras imagens de destaque para o autor são um retrato vintage feito por Ademar Veneziano, a imagem de Cristiano Mascaro do autoexílio de Chico em Roma e uma de Ricardo Chaves na qual o artista aparece à vontade em um intervalo de jogo de futebol. “Outra que adoro é uma dele no programa da apresentadora Xênia, nos anos 1980. Essa foto é importante porque fazia dez anos que o Chico não ia para a TV e, neste momento, aceitou ser entrevistado por ela. Ambos estão acendendo um cigarro, objeto presente em várias outras imagens. Era um charme da época.”

TEXTOS
Revela-te, Chico tem textos ao lado das fotos, assinados pelo jornalista e escritor Joaquim Ferreira dos Santos. Apesar de já ter escrito colunas em revistas de abrangência nacional, Augusto achou melhor direcionar a outra pessoa esta missão. “Achava que não teria tempo de fazer assinatura da obra inteira e, além disso, acredito que não sou tão bom de texto quanto designer”, conta. Assim, ele passava as informações sobre as fotos para Joaquim, que aprofundava as informações e as relacionava ao seu momento histórico. Joaquim já é autor das biografias de Antônio Maria, Leila Diniz e Zózimo Amaral. “Ele é carioca, meio da geração de Chico, então achei que seria uma pessoa que teria as informações pra poder conseguir deixar o texto até mais leve e atual”, conta. Embora não tenha escrito, Augusto estabeleceu as manchas de texto, editou as legendas e assina, obviamente, a direção de arte.

Nova fotobiografia mantida em segredo
Formado em Arquitetura pela Universidade Federal de Pernambuco, Augusto Lins Soares também cursou comunicação visual na UFPE. Em abril de 1994, fez um curso de jornalismo na Editora Abril e foi convidado para exercer a função de diretor de arte da revista Superinteressante. Abandonou a arquitetura e ficou nesta área por 25 anos, atuando também em publicações como Nova Beleza, Bravo, Elle, Cláudia, Nova, Ouse e Casa Vogue (essá última até 2016). Chegou a ter uma revista de própria autoria, a Dom, que circulou por um ano e meio e era voltada ao público masculino, focada em estilo e lifestyle. Voltou a Pernambuco ao final de 2018 e tem projetos. “Quero explorar o mercado editorial deste estado super-rico. Queria, também, retornar à minha cidade”, diz.

Entre os planos, uma nova fotobiografia, cujo biografado ainda não pode ser revelado. “Trata-se de uma personalidade conhecida nacional e internacionalmente, mas como o projeto ainda é embrionário, prefiro que haja mais consistência para divulgar. É alguém por quem tenho empatia, admiração e respeito, pois acredito que quando a proposta vem do autor, precisa ser desta forma, precisa ser algo prazeroso, como foi fazer o Revela-te”, conta. A fotobiografia de Chico está à venda em livrarias e plataformas na internet, ao preço de R$ 145.



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