Cinema A Maldição da Chorona expõe desgaste do universo Invocação do Mal

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 17/04/2019 09:03 Atualizado em:

Filme aposta em um fenômeno sobrenatural baseado no folclore mexicano: Chorona. Foto: Warner/Divulgação
Filme aposta em um fenômeno sobrenatural baseado no folclore mexicano: Chorona. Foto: Warner/Divulgação


O sucesso de público e de crítica do terror estadunidense Invocação do mal (2013) rendeu uma continuação (2016) e spin-offs ambientados naquela mesma realidade: Anabelle (2014), Anabelle: A criação do mal (2017) e A freira (2018). Assim, a história conseguiu se tornar uma espécie de "Universo Marvel" do terror nesta década. A comparação não é um exagero, já que se trata da franquia de horror de maior bilheteria da história, com mais de 1,5 bilhão de dólares acumulados, de acordo com o Box Office Mojo.

Nesta quinta-feira (18), a série ganha mais um filme, A maldição da Chorona, maior estreia da semana no país. O longa tem direção de Michael Chaves, roteiro de Mikki Daughtry e Tobias Iaconis e produção de James Wan, idealizador desse universo. Desta vez, a série aposta em um fenômeno sobrenatural baseado no folclore mexicano. De acordo com a lenda, Chorona foi uma moça que viveu no século 15 e matou seus dois filhos afogados em um rio. Arrependida, suicidou-se e desde então vaga pelo mundo para capturar outras crianças.

O filme se passa em 1972, na Califórnia, acompanhando a assistente social Anna Tate-Garcia (Linda Cardellini, de Green book - O guia), que cria dois filhos sozinha após perder o marido policial em uma tragédia. A personagem acaba cruzando o caminho da assombração quando tenta resolver o caso de uma imigrante latina, acusada de maltratar os filhos. Anna visita um padre (que também aparece em Anabelle, reforçando a conversa entre os filmes) para buscar uma solução, mas encontra ajuda em uma espécie de curandeiro - mostrando a intenção da produção em manter a história nessa “zona da cultura latina”.

O longa mantém vários aspectos do universo, com uma fotografia escura, atmosfera tensa e sustos causados pela aberração, que desta vez se veste de noiva. E é justamente nessa repetição abusiva de elementos que o filme perde seu potencial, mantendo um formato engessado que insiste em apostar em espantos e no temor que o ocidente tem pelo sobrenatural.

Foto: Warner/Divulgação
Foto: Warner/Divulgação
A maldição da Chorona facilmente poderia ser uma continuação de A freira, por exemplo, caso a personagem antagônica se vestisse como uma beata. E dessa vez a assombração consegue ser ainda mais exagerada e superestimada, às vezes arrancando risos em vez de sustos e justificando o título jocoso do longa-metragem. Para além dessas cenas mal dirigidas, os roteiristas não se esforçaram em criar uma história que cativasse, tentando fazer com que esse fator do “conto latino” sustentasse a originalidade do enredo. A atuação de Linda Cardellini não consegue segurar o filme, enquanto as crianças entregam performances caricatas.

Para além dos clichês técnicos e de texto, o filme também consegue soar negativo quando lido nas entrelinhas, em perspectiva mais social. As mulheres assombradas por Chorona são mães solteiras, dando a entender que essa classe é mais vulnerável, suas casas têm menos proteção e seus filhos são mais frágeis. A ausência da figura paterna parece ser um problema que fica acima do sobrenatural em alguns momentos, quase que justificando a assombração.

A personagem latina, por sua vez, é uma mulher invejosa, vingativa e que praticamente “transmite” a maldição de origem mexicana para a estadunidense branca. O blockbuster consegue reforçar um tipo de antagonismo étnico norte-americano bem na época que Donald Trump insiste em construir um muro para impedir a entrada de imigrantes. É um timing que até pode dividir opiniões, já que a falta de originalidade do filme deverá ser um consenso.
 
Confira o trailer:



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