Artes plásticas Exposição marca os 90 anos de Carlos Ranulpho, o 'mercador da beleza'

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 11/04/2019 14:17 Atualizado em: 11/04/2019 14:21

Foto: Lead Assessoria/Divulgação
Foto: Lead Assessoria/Divulgação
O marchand pernambucano Carlos Ranulpho, importante articulador entre artistas plásticos e sociedade, comemora 90 anos com uma mostra que traz ao público algumas preciosidades de seu acervo pessoal. Ranulpho 90 - Acervo íntimo do marchand reúne 15 telas tidas como especiais para o "Mercador da Beleza", expressão usada pelo escritor Marcelo Pereira na biografia lançada pela Cepe no ano passado. Entre as obras estão diversos nomes canônicos da arte brasileira e pernambucana, sobretudo ligados ao modernismo, com destaque para Vicente do Rego Monteiro, Wellington Virgolino, Lula Cardoso Ayres, Reynaldo Fonseca, João Câmara e Juarez Machado. A vernissage será nesta quinta-feira (11), a partir das 19h, na Galeria Ranulpho, Bairro do Recife. A entrada é gratuita.

"Eu escolhi expor as obras que considero mais especiais. Sempre guardei com muito carinho 'a primeira obra' que adquiri de um determinado artista. Meu primeiro Juarez Machado, meu primeiro Reynaldo Fonseca, meu primeiro Lula Cardoso Ayres. Eles ornaram minha intimidade, na minha casa, até agora”, diz Ranulpho, em entrevista ao Viver. “O de Juarez, por exemplo, é a primeira tela pintada por ele em sua temporada em Paris, que talvez tenha lhe rendido suas maiores obras. O de Reynaldo é outra obra-prima, em grandes proporções, muito delicado, uma cena belíssima em que ele explora o feminino de maneira bárbara. Esses dois são artistas com quem tenho muito prazer em trabalhar até hoje".

Carlos também revela ter um carinho especial pelas duas telas de Virgolino escolhidas para a mostra - em ambas, ele aparece como personagem. "Era um artista muito carinhoso e brincalhão comigo. Ele adorava fazer esse tipo de surpresa", relembra. Entre outros destaques está uma tela dos célebres "portões sombrios" de Lula Cardoso Ayres e uma pintura em madeira de Milton Dacosta. A exposição ainda traz trabalhos de Rafael Guerra, Alcides Santos e Siron.

Portões sombrios de Lula Cardoso Ayres e Tela de Virgolino em que Ranulpho aparece assistindo no fundo
Portões sombrios de Lula Cardoso Ayres e Tela de Virgolino em que Ranulpho aparece assistindo no fundo
A mostra também é uma síntese da trajetória profissional e pessoal de Ranulpho. Ao destacar episódios da carreira, ele cita a relação com Vicente do Rego Monteiro. “Eu fui um componente central na fase final dele, de quem me tornei um grande amigo e montei duas exposições em vida. Acho que aquele período foi crucial, inclusive para a ressignificação de Vicente no mercado nacional. Isso porque, até morrer, em 1970, ele estava pintando energicamente e se surpreendendo como suas obras estavam voltando a ser valorizadas na galeria que eu havia acabado de abrir. Vicente ficou ainda mais gigante depois de sua infeliz morte, e acho que contribuí um pouco para isso".

Aos 90 anos, seu desafio é manter um radar apurado para as novas tendências, sem se desligar do que considera obras de arte atemporais, como as expostas. “Embora tenha havido muitos movimentos importantes de ruptura com uma arte mais formal, o modernismo segue revitalizado, através de ressignificações dos que já foram, como também dos que estão em plena atividade, produzindo de maneira significativa e muito criativa, como José Cláudio e Reynaldo Fonseca. Eles têm uma marca pessoal que desenvolvem de maneira muito singular.” Ele também destaca outros nomes ligados a uma estética contemporânea e que já expuseram na Galeria Ranulpho, como Bete Gouveia, Pragana, Rinaldo Silva e Eudes Mota.

"Me manter há 50 anos no ofício não foi fácil, mas muito prazeroso. Passamos por cima de muitas crises econômicas, mas trabalhamos com uma arte que é atemporal e sempre haverá espaço para ela. Acho que a longevidade da galeria é a principal prova disso. Construímos um nome de referência no que tange a arte moderna brasileira, e isso me enche de felicidade", conclui o Mercador.

Serviço
Ranulpho 90 - Acervo íntimo do marchand
Onde: Galeria Ranulpho (Rua do Bom Jesus, 125, Bairro do Recife)
Quando: hoje, a partir das 19h
Visitação: até 30 de abril, das 10h às 12h e das 14h às 17h
Quanto: gratuito
Informações: (81) 3225-0068



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