Artes plásticas Exposição revela angústias e memórias de França Bonzaion

Por: Juliana Aguiar - Diario de Pernambuco

Publicado em: 10/04/2019 10:15 Atualizado em: 10/04/2019 12:00

O artista expõe 17 obras de traços livres hoje na mostra Meditação: Narrativas do Inconsciente - Foto: Lívia Neves/Divulgação
O artista expõe 17 obras de traços livres hoje na mostra Meditação: Narrativas do Inconsciente - Foto: Lívia Neves/Divulgação

Os traços retilíneos e rabiscos incertos nas folhas do caderno durante as aulas do colégio conduziram Lucas de França ao caminho da arte. E ela desaguou na exposição Meditação: Narrativas do inconsciente. A mostra, exibida pela primeira vez na Casa Galeria Galpão, no Festival de Inverno de Garanhuns do ano passado, será lançada hoje, às 19h, no restaurante Cá-Já (Rua Carneiro Vilela, 648, Aflitos) e ficará em cartaz até 12 de maio.

Desenhista na infância e adolescência, Lucas fez surgir França Bonzaion, codinome que assina as obras, fruto de uma junção entre o abstrato e o concreto. Com uma caneta esferográfica em punho, ele traduziu no papel kraft as angústias e força de seu trabalho. "Desde que comecei a desenhar, a caneta era a minha escolha. Sempre consegui me expressar melhor e passei a dominar o traço com ela", conta. Ambiguidade, conflito, dor, imersão e fuga são alguns dos sentimentos presentes nas 17 obras e intervenções expostas. O artista imergiu na arte durante seis meses, narrando caminhos propostos por sua memória afetiva e paisagens contempladas no interior da Bahia, numa viagem-pesquisa. Através de traços rápidos, agressivos e intuitivos, a escassez e conflitos do mundo são retratados nas ilustrações de uma maneira particular.

"Eu saio do papel de compositor e assumo a posição de espectador, o que me faz mudar os rumos do desenho. Do tempo de produção, 20% estou de fato criando e 80% encarando o que já foi feito, tentando encontrar caminhos. A ideia é sempre expandir o pensamento”, explica. Para traduzir seus sentimentos, França usa a estética do "doodle", permitindo que os seus esboços ganhem forma. E, a partir de linhas paralelas próximas, cria efeitos de tons ou sombras, o que corresponde ao uso de outra técnica, a hachura. Apesar de receber forte influência da arte urbana, França acredita não se encaixar em vertentes artísticas. "Minha relação com a arte é a minha relação com a vida. Eu me considero artista pelo simples fato que ser humano é praticar arte. E exercendo, você valoriza a vida", explica.

O tcheco Alphonse Mucha, da Art Nouveau, e o americano Jackson Pollock, do expressionismo abstrato, são referências para o artista, que destaca também os trabalhos dos colegas Raoni Assis, Johny Cavalcanti e Jota ZerOff. Negro, França confessa enfrentar dificuldades para exibir seus desenhos. "Algumas galerias tradicionais do Recife e do Brasil refletem a nossa sociedade e dizem muito sobre o lugar do negro e do poder aquisitivo. Eu tento focar no meu trabalho e acreditar que eu posso estar ali."



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